segunda-feira, 8 de junho de 2026

Ferrari F40


A Ferrari F40, além de celebrar os 40 anos de fundação da Ferrari, foi o último modelo aprovado pelo "Comendattore" Enzo. A F40 nasceu em 1984 da evolução da 288GTO para competir no Grupo B da FIA, especialmente contra o Porsche 959; Nicola Materazzi havia proposto a Enzo para ser uma vitrine aos clientes da Ferrari, com um desempenho além do que os compradores regulares podiam ter em seus carros.

No entanto, com a extinção da categoria no final de 1985, Enzo ficou com o mico de cinco exemplares da 288 GTO Evoluzione já desenvolvidos em fase final para competição. Para não desperdiçar todo o trabalho até então, a solução foi criar um supercarro de corridas, mas para rodar legalmente nas ruas. Conta-se que um executivo de marketing da Ferrari comentou: "Queríamos que fosse muito rápido, extremamente esportivo e espartano", "Os clientes vinham dizendo que nossos carros estavam ficando muito macios e confortáveis." "A F40 é para os mais entusiasmados dos nossos proprietários que só querem puro desempenho. Não é um laboratório para o futuro, como o 959. Não é Star Wars. E não foi criado porque a Porsche construiu o 959. Teria acontecido de qualquer jeito."



A carroçaria foi projetada por Aldo Brovarone, da Casa Pininfarina, com Nicola Materazzi cuidando do motor, câmbio e outras partes mecânicas para torna-lo apto para circular nas ruas.

Equipado com um V8 a 90º de 2,9 litros e duplo turbocompressor e intercooler, desenvolvia 478 hp a 7000 rpm e 577 lb-ft de torque a 4000 rpm; fazia de 0-100 km/h em 3,8 segundos (a versão preparada para corridas fazia em 2,99 segundos). A F40 foi o primeiro carro vendido ao público que quebrou a barreira das 200 mph (320 km/h).


Em 1987 ao ser apresentada ao público, no Centro Cívico de Maranello,  era o mais rápido, potente e caro modelo da Ferrari vendido ao público: o preço posto fábrica era de US$ 400,000; porém logo que chegou ao mercado, alguns exemplares eram anunciados (e vendidos) a US$ 1.6 milhões.


O design da casa Pininfarina foi executado em kevlar, fibra de carbono e alumínio, para baixar o peso, e aerodinâmica muito estudada para atingir altas velocidades com segurança. O carro tinha ar-condicionado, mas não vinha com sistema de som, não possuía maçanetas para abrir as portas, nem porta-luvas, bancos de couro, carpetes ou painéis de acabamento as portas; os vidros eram de Lexan, para aliviar o peso, e as janelas laterais eram de correr na horizontal, que foram substituídas por vidros que se abriam verticalmente depois das primeiras cinquenta unidades construídas.



A aerodinâmica foi estudada para ajudar o resfriamento do motor, otimizando o fluxo de ar para os radiadores, seção dianteira e cockpit, e difusores atrás do motor, para extrair o ar quente devido aos turbocompressores. Um novo pneu P-Zero foi desenvolvido pela Pirelli, exclusivamente para a F40, com carcaça de Kevlar, e padrões assimétricos na banda de rodagem, aplicando a tecnologia usada na Formula Um de 1980 a 1985.


A Ferrari F40 foi produzida de 1987 a 1992, com 1.311 exemplares fabricados, dos quais 213 unidades foram exportadas para os Estados Unidos. Todas saíam de fábrica na cor Rosso Corsa, com volante à esquerda. O exemplar que pertenceu a Nigel Mansell (que correu pela Ferrari na Formula Um) foi vendida em 1990 por £1 milhão, um recorde que só foi superado em 2010.

Um carro tão visceral como a Ferrar F40 não podia deixar de criar polêmica, e diversas publicações que testaram o modelo teciam elogios ao desempenho e dirigibilidade, em velocidades próximas das 200 mph (322 km/h), mas outras criticaram severamente a brutalidade esportiva do carro, como Mel Nichols, da Autocar, escreveu: "Ainda não sei se a F40 é intransigente no trânsito, temível na chuva, desconfortavelmente agressiva em estradas esburacadas ou muito barulhenta em viagens longas. Não tem espaço para bagagem e entrar e sair é complicado. Mas eu sei disso: em uma estrada lisa, é um carro incrivelmente rápido, dócil e encantador por natureza; um carro exigente, mas não difícil de dirigir, abençoado com enorme aderência e, ainda mais importante, equilíbrio e maneiras excepcionais. Você pode usar seu desempenho, o mais próximo que qualquer fabricante de carros de produção já chegou do nível de carros de corrida, e se deleitar com isso."


Gordon Murray, que projetou o McLaren F1, disse na edição de julho de 1990 da revista Motor Trend: "É a falta de peso que torna a Ferrari tão empolgante. Não há nada mais de mágico no carro... Eles estão pedindo tubos de aço de dois e três polegadas de diâmetro no nível do datum base do chassi para fazer todo o trabalho, e isso fica evidente – você sente o chassi flexionando no circuito e ele balança por todo lado na estrada. Realmente balança. E, claro, quando você excita o chassi, os painéis das portas começam a balançar e ranger. Enquanto os outros carros parecem firmes e sólidos, este é como um kart grande com uma carroceria de plástico." Ele criticou severamente a antiga tecnologia de corrida: "Nem é tecnologia dos anos 60, do ponto de vista da estrutura, é tecnologia de dois tubos dos anos 50, nem mesmo um spaceframe. Ele só tem chassis locais para segurar a antepara no painel, fixar a suspensão dianteira, a suspensão traseira e a barra de proteção. E aí você tem a cola de marketing Kevlar com um quarto de polegada de borracha." 

Car & Driver chamou o carro de "uma mistura de puro terror e excitação pura". O mais divertido era acelerar na primeira marcha a partir de 15 mph (24 km/h), o "terror puro" era dirigir em uma rodovia movimentada. A visão traseira era tão ruim que trocar de faixa exigia "saltos de fé". Foi considerado inadequado para uso diário em estrada, "desajeitado e rabugento" na cidade, "tão mecanicamente inadimplente que um mecânico a bordo é aconselhado"; para descrever o desconforto do motorista foi usado "prisão para devedores de Bangkok". 


Mesmo assim, a Ferrari F40 tem o carisma de ser a celebração dos 40 anos da Ferrari, o legado de Enzo para um carro puramente esportivo, com performance inigualável, brutal e até assustador para os desavisados.

Da minha coleção



A F40 Hot Wheels é um novo casting, feito depois que a Mattel conseguiu renovar a licença para produzir as miniaturas da Ferrari. Mais bem detalhada do que os lotes antigos, ela reproduz a versão Competizione, a pedido de um importador da França, que desejava correr com ela nas 24 Horas de Le Mans. Dez exemplares foram construídos, os dois iniciais foram denominados F40 LM, e os oito restantes, chamados Competizione, porque a Ferrari achava que a sigla LM era um tanto restritiva. A versão tinha 691 hp a 8100 rpm com um upgrade nos turbocompressores do motor V8, atingindo a velocidade máxima de 367 km/h (228 mph).

Ferrari F40 Competizione

Não confundir com a versão F40 LM preparada por Michelotto (de Pádua), que construiu três unidades para correr na IMSA na classe GTO/GTU em 1989 e 1990. Os três carros continuaram correndo em 1991 até 1995, quando um quarto exemplar foi desenvolvido independentemente pela Pilot-Aldix Racing e Strandell. Até 1996, um total de 19 exemplares foram construídos cem estas especificações para participar de competições de longa duração.

Ferrari F40, TOMICA Premium




O modelo da TOMICA é bem detalhado, casting bem cuidado, pintura uniforme no vermelho Ferrari. Destaque para o grande capô traseiro que se abre, mostrando o poderoso V8 com dois turbos. Decalques do Cavalinho Rampante bem-feitos, rodas com o mesmo design do original, e as lanternas dianteiras caprichadas em plástico incolor. Com algum trabalho a mais no detalhamento, fica uma miniatura excelente nas coleções dos Ferraristas de plantão.

Referências:

https://hotwheels.fandom.com/wiki/Ferrari_F40_Competizione

https://en.wikipedia.org/wiki/Ferrari_F40

https://tomica.fandom.com/wiki/Special:Search?scope=internal&navigationSearch=true&query=Ferrari+F40

http://www.estadao.com.br/jornal-do-carro/noticias/carros,ferrari-f40-bate-recorde-em-leilao,25466,0.htm

http://rmsothebys.com/mo15/monterey/lots/1994-ferrari-f40-lm/1076049

https://www.youtube.com/watch?v=vU5NOcpXgVc

https://www.uol.com.br/carros/noticias/redacao/2017/12/15/classico-conheca-ferrari-f40-que-veio-ao-salao-de-sp-de-1990-e-nao-voltou.htm

Ferrari F40 (1987) - Ferrari.com


segunda-feira, 1 de junho de 2026

’65 Mercury Comet Cyclone

Mercury Comet, 1964

Pegando carona na corrida espacial no início dos anos 1960, o Comet compartilhava a mesma plataforma do intermediário Ford Falcon. Os carros da linha Mercury tinham um acabamento melhor do que o Falcon, e a geração de 1960-1965 tinha o mesmo design, apenas o entre eixos era 5” (130mm) mais longo; e muitas vezes eram chamados de “round body” Comet.

O Cyclone surgiu na linha de 1964, com a produção de 50 unidades de ultra alta performance, equipados com um V8 FE de 427 cid (7 litros) com mais de 700 hp e dois carburadores quádruplos de corrida, com câmbio manual de quatro marchas ou automático de três. O direcionamento destes modelos eram as pistas de Dragsters: carro leve com um grande e potente motor, os Comet dominaram a classe A/FX da NHRA nas mãos de lendas como Ronnie Sox, "Dyno Don" Nicholson e "Wild Bill" Shrewsberry.

O Mercury Comet Cyclone, já com o face-lift de linhas retas

Para 1965, o Cyclone recebeu um facelift dianteiro e traseiro, com dois faróis verticais e uma grade retilínea, seguindo o estilo dos Ford mais luxuosos, dos Pontiac e Cadillac da época. O motor básico era um de seis cilindros em linha de 200 cid (3,3 litros), com um carburador simples que gerava 120 hp a 4400 rpm. Já o V8 subiu de 260 cid para 289 cid (4,7 litros), com um carburador duplo, fornecia 200 hp a 4400 rpm. A transmissão padrão continuava com a alavanca na coluna de direção, manual de três marchas, sendo opcional o câmbio “Merc-O-Matic” de três marchas (essencialmente uma caixa Ford C4). Os carros equipados com o V8 podiam vir com o carburador básico duplo com 200 hp; ou receber um quadruplo que fornecia 225 hp, e ainda o de alta performance de 271 hp que vinha do Mustang, alinhado com uma caixa automática de quatro velocidades.



A partir de 1966-67, o Cyclone se posicionava como o Muscle-Car da linha Comet, e os modelos foram comercializados como carros distintos, e com o tempo, até as plataformas em que eram construídos ficaram diferentes.




Sendo um carro leve, com motor potente, diversos preparadores colocaram o Comet nas pistas de arrancada, e o modelo teve um sucesso muito grande, especialmente na categoria Gasser, em que as suspensões dianteiras eram levantadas, e substituídas por eixos rígidos mais simplificados, com rodas mais finas e leves.

Da minha coleção



O Mercury Comet Cyclone (preto) é um hot Wheels, da Série HW Gassers, uma categoria dos carros de arrancada com compressores e a frente levantada, com eixos dianteiros simplificados e molas semielípticas para aliviar o peso.




O Comet Cyclone branco é da Série Pop Culture: Speed Shop, que saiu em 2023, e tem rodas especiais com pneus de borracha (Real Riders). A decoração é da American Racing Equipment, fundada por Romeo Palamides, em 1956, produzindo rodas de liga para dragsters e Muscle-Cars. Seu modelo icônico são as Torq Thrust, lançada em 1963, com cinco raios, fazendo sucesso até hoje, mais de 60 anos depois. A medida do sucesso da American Racing pode ser vista no Mustang de Bullit e o Dodge Charger “General Lee”, equipados com as rodas criadas por Romeo Palamides.




O modelo vermelho é um Mainline da Serie Drag Racers, de 2026, e reproduz o carro de Don Nicholson, piloto, construtor, preparador e embaixador do tema Drag Racing. Começou a correr em 1961, com a Chevrolet, mas passou a usar os Ford após as montadoras deixarem de patrocinar o esporte motor. Correndo então com os Mercury, este de 1965 foi umdos carros com que venceu diversas arrancadas. Don Nicholson, também conhecido como “Dyno Don”, foi o primeiro piloto a correr com o que veio a ser chamado de Funny-Car em 1966, chassis especiais encarroçado por uma bolha de fibra de vidro basculante. Depois, em 1968, criou a categoria Super Stock, que mudou o nome para Pro Stock em 1970, onde foi campeão na temporada de 1977, aos 50 anos de idade. Ele continuou competindo até 1999, e acometido de Alzheimer, veio a falecer devido às complicações de saúde em 24 de janeiro de 2006.

O Comet Cyclone 1965 de Don Nicholson




Referências:

https://hotwheels.fandom.com/wiki/%2765_Mercury_Comet_Cyclone

https://en.wikipedia.org/wiki/Mercury_Cyclone

https://en.wikipedia.org/wiki/Mercury_Comet

https://www.americanracing.com/about

https://en.wikipedia.org/wiki/American_Racing_Equipment

domingo, 31 de maio de 2026

Ford Thunderbolt – 1964


No início dos anos 1960, a classe Factory Experimental/Super Stock da NHRA (National Hot Ro Association) produziu alguns modelos mais lendários das Big Three (Ford, GM e Chrysler). Como o Galaxie da Ford ia bem na NASCAR, mas era muito pesado para as Drag Strip de 402m, a solução da Ford foi colocar o maior e mais potente motor no Fairlane, modelo logo abaixo do Galaxie.

Pesando 700 libras (318 kg) a menos do que o Galaxie, o Fairlane sedan duas portas de 1963 recebeu diversas modificações para se tornar mais competitivo diante dos Plymouth Savoy e Dodge 330 com motor Hemi. Contratando a Dearborn Steel Tubing para modificar o Fairlane de linha, teve as portas, capô, para lamas e para choque dianteiros em fibra de vidro, além de acrílico para os vidros laterais e traseiros.

Foram eliminados também o rádio, sistema de aquecimento, limpador de para brisas do lado do passageiro, para sóis, espelhos, forração acústica, carpetes, chave de rodas, macaco, estepe, calotas e outros componentes desnecessários à função de competir. Os bancos dianteiros foram trocados por outros mais leves e simplificados, deixando o carro perto do limite mínimo da categoria.

O farol eliminado e substituído por uma entrada de ar

Dos quatro faróis dianteiros, os dois internos foram eliminados e as aberturas foram utilizadas para captar o ar frio diretamente para o conduto do filtro de ar do V8 de 427 cid. Com o motor maior do que o Windsor original, a suspensão dianteira teve de ser modificada, recebendo reforços nas fixações, amortecedores e molas mais firmes, os coletores de admissão e de exaustão de alumínio, e mesmo assim, o capô teve de receber um ressalto para acomodar os componentes de admissão.



A suspensão traseira recebeu barras de tração robustas e molas de lâminas assimétricas, um diferencial travante, rodas especiais com pneus Goodyear e Mickey Thompson exclusivos para o conjunto. A transmissão automática Lincoln de alta potência era o padrão, mas podia ter um câmbio manual de quatro marchas Borg-Warner. A bateria de caminhão foi realocada no porta malas para melhorar a distribuição de peso.



O V8 de 427 cid com dois carburadores Holley quádruplos gerava 425 cv a 6000 rpm e 480 lb-ft de torque a 3700 rpm na ficha técnica, mas muitos preparadores desconfiavam que a potência chegava perto dos 540 cv, tornando o Thunderbolt um dos mais potentes carros de rua de sua época.

Nas pistas de arrancada, o carro fazia passagens de 11 segundos por todo o país, e a Ford conquistou o título do NHRA Super Stock de 1964.

O Thunderbolt de Mickey Thompson, na cor Vintage Burgundy

Mickey Thompson foi um dos primeiros pilotos a receber um Thunderbolt para correr, e seu carro na cor Vintage Burgundy se tornou referência nas competições. Thompson buscou aumentar a potência do V8 427 cid, fundindo novos cabeçotes de alumínio, copiando as câmaras hemisféricas dos motores Hemi da Chrysler. Seu carro atingiu 11,40 segundos e 129 mph no Winternational de 1964, com Jerry Tyree ao volante, dois décimos mais rápido do que os tempos que garantiram à Ford a NHRA Manufacturers Cup daquele ano. O modelo restaurado foi leiloado pela Barret-Jackson e bateu o martelo com US$ 242,000.

A placa de aviso aos compradores da finalidade de uso do Thunderbolt

Apesar do Thunderbolt ser habilitado para rodar nas ruas, na prática, com as modificações, tornava-se inadequado para uso normal. A Ford afixou uma placa no painel avisando que o carro era exclusivo para competições, e várias especificações não coincidiam com a ficha técnica do modelo vendido nas concessionárias Ford.


Apenas 100 unidades do Thunderbolt foram produzidas em 1964, com os onze primeiros na cor Vintage Burgundy e os demais 89 na cor Wimbledon White, tornando-os altamente procurados pelos apreciadores de modelos de alta performance. Dos 110 exemplares, 49 tinham o câmbio de quatro marchas e 52 com o câmbio automático. Cerca de metade deles ainda sobrevivem, e sempre que um deles vai a leilão, alcançam valores próximos de um quarto de milhão de dolares. Até mesmo réplicas bem executadas a partir dos Fairlane normais atingem somas de mais de US$ 50 mil por unidade.

Da minha coleção




O Thunderbolt da Hot Wheels reproduz o modelo de 1964, com uma decoração típica dos carros da época, mas não vem nem na cor Vintage Burgundy, nem na Wimbledon White. É um mainline de 2005, mas foi customizado com rodas especiais e pneus de borracha. Apenas a versão que saiu em 2005 (um Real Riders) foi decorado com o visual de Gas Ronda, piloto que venceu o campeonato de Super Stock de 1964.



Referências:

https://hotwheels.fandom.com/wiki/Ford_Thunderbolt

https://en.wikipedia.org/wiki/Ford_Fairlane_Thunderbolt

https://www.streetmusclemag.com/features/muscle-cars-you-should-know-1964-ford-fairlane-thunderbolt/

https://fastlaneonly.com/1964-fairlane-thunderbolt-a-factory-drag-weapon/

segunda-feira, 25 de maio de 2026

Mustang 1968 - Dick Trickle, Rei das "Short Track"


Lançado em 1964, o Mustang fazia sucesso na América, e logo em 1968, a lista de motores cresceu para um V8 Cobra Jet de 428 cid (7 litros) do Cobra roadster com 425 hp, mas amansado para 335 hp; e Carrol Shelby fez um upgrade no GT350 para um GT 500, e depois para o GT 500 KR (“King of the Road” -  Rei da Estrada); e mesmo com novos concorrentes, o GT 350 venceu novamente o Trans-Am Manufacturers Cup; além de ganhar o bi-campeonato do SCCA B-Production também pela segunda vez.

Sobre a potência do Mustang GT500 KR, muitos alegavam que o valor declarado era menor do que a real, por causa das companhias de seguro, e calculavam que ele teria cerca de 400 hp. O KR fazia de 0-60 mph em 6,9 segundo e o quarto-de-milha em 14,6 segundos.

Mustang Shelby GT500, 1968

Com o sucesso do Camaro Z/28 na categoria de 5,0 L na Série Trans-Am da SCCA desde 1967, e o Mustang com o motor Small-Block de 289 cid (4,7 L) e o de 390 cid (6,4 L) não se mostravam à altura dos carros da Chevrolet nas classes acima de 2,0 L (Trans-Am) e até 7,0 litros (NASCAR). Então, a Ford respondeu com o Mustang Boss em 1969 e 1970, equipado com o motor de 302 cid (4,9 L) e o Big-Block de 429 cid (7,0 L).

O V8 de 302 cid que equipava os Mustang Boss era bem diferente dos 302 padrões de linha. O small-block tinha paredes entre os cilindros mais fina e o bloco com muito mais teor de níquel. O motor V8 de 302 cid (4,9 litros) gerava 290 hp, e eliminou os anteriores 289 cid a partir de dezembro de 1967. O virabrequim era roletado de quatro mancais, cabeçotes com válvulas inclinadas, que podiam ser maiores do que as utilizadas no 351 Cleveland.

O câmbio tinha quatro marchas, direção com relação de 16:1, diferencial com relação de 3,5:1, amortecedores reguláveis na traseira, e as suspensões foram rebaixadas, os freios dianteiros eram a disco, as barras estabilizadoras tinham um diâmetro maior, os eixos e as torres de suspensões foram reforçadas também. O exterior vinha com capô dianteiro e traseiro em preto fosco, faixas laterais com a inscrição “302 C”, persianas no vidro traseiro semelhantes às do Lamborghini Miura, spoiler frontal, paralamas alargados e rodas Magnum 500 com pneus F60 de aro 15.

Mustang Boss 302, 1969

Larry Shinoda, que veio da GM, foi o responsável pelo estilo do Mustang Boss. Ele excluiu as falsas entradas de ar à frente da caixa das rodas traseiras; a carroçaria tinha diversos apliques aerodinâmicos, como o spoiler dianteiro e uma asa traseira, sendo o primeiro carro de produção a ter estes acessórios. Como curiosidade, certa vez, quando Shinoda foi questionado sobre o que estava fazendo com o Mustang, ele respondeu: “Estou fazendo o carro do chefe”, referindo-se a Semon “Bunkie” Knudson, que havia deixado a GM pela Ford e levou Shinoda para desenvolver um Mustang para as corridas da Trans-Am. “Boss”, além de significar “Chefe”, era uma gíria popular nos anos 1960 para “excelente” ou “muito legal”, então o nome acabou ficando para a versão que Shinoda estava criando.

A frente do Mustang Boss de 1969 era igual aos demais da linha, mas para 1970, os faróis foram deslocados para dentro da grade central, e o espaço foi ocupado por duas pequenas aberturas horizontais. A Ford ficou com o vice-campeonato em 1969 e conquistou a taça em 1970.

O mais famoso Mustang 1968 certamente foi aquele 390 utilizado nas filmagens de “Bullit”, com Steve McQueen interpretando Frank Bullit, atuando na que é considerada a mais emocionante perseguição do cinema de todos os tempos.

Da minha coleção



O Mustang 1968 da Racing Champions reproduz um modelo que teria sido utilizado por Richard “Dick” Trickle, nas corridas da NASCAR no final dos anos 1960. Apesar da decoração característica dos carros que competiam naquela época, Trickle corria com o número 99, em vez do 90 gravado na miniatura, e seus carros eram pintados com uma cor púrpura com teto em branco. Até onde pesquisei, não há registros de que Trickle correu realmente com um Mustang 1969.





Dick Trickle foi um dos maiores vencedores da NASCAR, nas “Short Tracks”, pistas ovais com menos de uma milha de extensão, começou a correr em 1957, com 16 anos e um velho Ford 1950, e demorou mais 16 anos para começar a vencer, mas depois, não parou mais.

Dick Trickle

Estima-se que ele largou em mais de 2.200 corridas, e venceu cerca de 1.200 delas, sendo considerado o piloto mais vitorioso nas “Short Track” da história. Entre todas, conta-se 67 vitórias em 1972, sete campeonatos ARTGO em nove anos entre 1979 e 1987, bicampeão na ASA AC-Delco Challenge em 1984 e 1985; “rookie of the year” no USAC Stock Car de 1968, “rookie of the year” no NASCAR de 1989.

Mustang 1970,  apelidado de "Purple Knight"  (Cavaleiro Púrpura")
 

Sempre correndo com os Ford, depois de muitos problemas nas temporadas de 1974 e 75, trocou pelos modelos da GM em 1976, vencendo 40 corridas na temporada. Entrando pelos anos 1980, continuou competindo na NASCAR, e em 1989, aos 48 anos, foi considerado “rookie of the year” na Winston Cup Series, e também o mais idoso piloto a competir na categoria. Correu 303 provas, não foi campeão, mas terminou cinco vezes em terceiro, 15 vezes ficou entre os cinco melhores e 36 vezes entre os 10 melhores.

Nos anos 1990, Dick Trickle usava o duplo sentido do seu sobrenome (“trickle” podia significar “devagar, lento” em inglês) para conseguir popularidade, e frequentemente, os locutores das corridas mencionavam em que lugar ele terminara a corrida, após darem os destaques aos vencedores. Também, como a Wiston Cup era patrocinada pela famosa marca de cigarros, ele fez um buraco no capacete, para poder fumar durante as corridas, e quando a NASCAR autorizou-o a fumar durante as bandeiras amarelas, ele instalou em seu carro um isqueiro para acender os cigarros.

Voltando aos Ford, na NASCAR

Mesmo não tenho muito sucesso continuou correndo na NASCAR, e a partir de 1984, na Busch Series, teve 158 largadas, com 24 top 5 e 42 top 10; e seguiu competindo nos anos 2000, em eventos ocasionais em Wisconsin, até se aposentar em 2007 definitivamente das pistas.

Dick Trickle passou a sofrer de severas dores crônicas, e nenhum tratamento foi eficaz para descobrir as origens das dores e minimizar os efeitos em seu corpo. Depois de muitos anos lutando com sua saúde, foi ao Cemitério Forest Lawn, em Boger City, Carolina do Norte, em que sua neta está enterrada e ligou para o 911 (Emergências nos EUA), dizendo que “Vai haver um corpo, suicídio”, e quando a operadora perguntou quem iria se suicidar, ele respondeu: “Eu sou o escolhido”. Ele foi encontrado ao lado de sua caminhonete, no dia 16 de maio de 2013, morto por um disparo de arma de fogo.

O La Crosse Fairgrounds Speedway criou em 2007 a corrida Dick Trickle 99, com 99 voltas (três baterias de 33 voltas) durante a fim de semana anual da Oktoberfest. Vários circuitos do meio-oeste tem corridas Trickle Memorial, sendo a maioria com 99 voltas, que era o número do seu carro.

Comenta-se que o personagem de Tom Cruise em “Dias de Trovão” se chama Cole Trickle em homenagem a Dick, mas outras fontes dizem que foi baseado em outro piloto famoso, Tim Richmond.

Referências:

https://www.tellmebest.com/1legendary-richard-trickle-story-race/

https://leotogashi.blogspot.com/2022/11/ford-mustang-parte-ii-primeira-geracao.html