
Ford Cortina, no London Motor show de 1962
O Ford Cortina foi lançado no Reino Unido em 1962, e a
geração Mk1 foi fabricada até o ano de 1966. O final dos anos 1950 prenunciava
tempos animadores para uma Europa que começava a esquecer as agruras da II
Guerra, retomando a vida onde tudo de bom podia ser feito.
O mercado automobilístico também era um reflexo desta
atitude, e a Ford britânica trabalhava febrilmente para atender este anseio do
público com novos modelos. O projeto do Ford Cortina ganhou forma em 1960, e em
três meses, foi construído um modelo em argila em tamanho real, e entrou em
produção apenas 21 meses depois, um tempo recorde para a época.
Patrick Hennessy, presidente da Ford Britânica, visitou
os Estados Unidos em 1960, e soube que a Ford americana havia abandonado um
projeto de um sedã compacto, repassando-o para a Ford da Alemanha. Era um
pequeno sedã cujo codinome era “Cardinal”, tinha um motor V4 com tração
dianteira, e eventualmente, se tornaria o Taunus 12M na Alemanha.

Ford Cortina, modelo de pré-produção
Hennessy viu potencial no conceito, mas acreditava que
o mercado britânico precisava de um modelo mais simples e econômico. Voltou
para o Reino Unido e trouxe Harley Copp, para chefiar a Unidade de Design e
Engenharia, e liderou todos os projetos da Ford britânica durante a década de
1960, até retornar aos Estados Unidos depois da conclusão do Cortina Mk3.
Hennessy convenceu a Ford americana a lhe dar passe
livre para desenvolver a versão britânica deste carro, e apesar de serem a
mesma companhia, as divisões britânica e alemã não tinham uma boa política de
cooperação, então, eles assumiram o projeto a seus modos, denominando
inicialmente como Consul 225, e depois como “Project Archbishop”.
Terence (Terry) Beckett foi designado Chefe de Planejamento de Produto, e Fred Hart, Engenheiro-Chefe de Carros Leves ─ que tinha experiência por desenvolver o Ford Anglia e Consul ─ ficaram responsáveis pela engenharia e design do novo modelo. As diretrizes eram ter um design distintivo da concorrência, uma construção inovativa com redução de peso (menos de 770 kg), o máximo de espaço e conforto para um carro pequeno, e agradável de dirigir. Dennis Roberts, engenheiro vindo da Bristol Aeroplane, trouxe a tecnologia aeronáutica empregada na construção do carro.
Roy Brown, mais conhecido por desenhar o malfadado
Edsel, foi exilado para a Grã-Bretanha, e colaborou na finalização do Project
Archbishop. Brown e a equipe entregaram o Ford Cortina, um carro pequeno, simples,
mas altamente eficaz; com um design de linhas angulares, vincos afilados nas
laterais e as lanternas traseiras CND, que se tornaram icônicas.
Equipado com o motor “Kent” 105E do Anglia, aumentado
para 1.198 cc, gerava 49 hp, atingindo 75 mph (120 km/h) de máxima, e fazendo
de 0-60 mph (96 km/h) em 22,5 segundos. Tinha suspensões dianteiras McPherson e
eixo rígido traseiro, e seu peso ficou apenas 20 lb (9,0 kg) a mais do que o
previsto.
Terence Beckett (depois recebeu o título de “Sir”)
disse: “O Cortina ficou abaixo do custo e, o mais importante, fizemos isso em
tempo recorde. Acredito que levamos 21 meses desde o protótipo em argila em
tamanho real até o primeiro protótipo, o que, na época era um recorde absoluto
para a indústria. Decidimos que precisávamos de uma carroceria maior e também
de mais espaço para as rodas. Decidimos que iríamos incluir um porta-malas de
verdade – de certa forma, exageramos um pouco, mas era perfeito para um representante
que queria levar amostras e também para o motorista da família.”

Ford Consul Cortina Saloon (sedã 4 portas), 1963
Lançado em 20 de setembro de 1962 no London Motor
Show, o Ford Cortina definiu o segmento dos carros familiares pelas próximas
duas décadas, sedimentando a liderança da Ford Britânica no mercado.
O pequeno sedã veio com o motor de 1.198 cc com três
mancais, com válvulas no cabeçote, derivado do Ford Anglia; um modelo familiar prático
e despretensioso, mas que trazia uma engenharia moderna debaixo de sua
aparência discreta. As vendas impressionantes confirmaram as previsões de
Hennessy, e o Cortina se tornou o mais novo queridinho do mercado.
Isso motivou a Ford a incrementar o Cortina, e já em
1963, lançava o Cortina Super, equipado com o motor ampliado para 1.498 cc, com
cinco mancais, prenunciando a vocação esportiva do modelo, preparando o caminho
para a vinda da versão GT, lançada no verão de 1963.

Ford Cortina GT, 1965
O Cortina GT foi uma grande evolução, comprovando que
os compradores queriam mais desempenho. A suspensão foi rebaixada, e o motor de
1.498 cc preparado para gerar 78 cv, com um comando mais agressivo, um cabeçote
retrabalhado com dutos maiores, um coletor de escape tubular e o carburador
WEBER 28/36 DCD de corpo duplo, tornaram o pacato Cortina o terror de sua
classe frente aos Morris Marina da BLMC e Sunbeam da Chrysler britânicos. A
revista Autocar de 1963 apontava que o carro fazia de 0-60 mph em 13,9 segundos
e atingia a máxima de 94 mph (152 km/h).
Ainda em 1963 a linha foi ampliada com a introdução da
versão 1200 DeLuxe e o 1500 Super, esta última também disponível como
Station-Wagon, com painéis de madeira nas laterais, imitando as grandes peruas
americanas com estes acabamentos.

Lotus Cortina, 1964 
Colin Chapman com Jim Clark no Lotus Cortina
O último e maior desenvolvimento desta geração Mk1 do
Cortina foi o Lotus Cortina, versão de alta performance feita em colaboração
com a Lotus, de Colin Chapman, para correr no Grupo 2, que exigia pelo menos
1.000 exemplares para ser homologado. Partindo de um motor quatro cilindros
(125E/126E) de 1.558 cc, com duplo comando no cabeçote, modificado por Chapman
e instalado no Lotus Coventry Climax, o Lotus Cortina veio a ser um formidável
competidor nas corridas e um ícone, a seu próprio modo. O motor gerava 105 hp a
5500 rpm e 146 N-m de torque a 5500 rpm. Os exemplares de corrida tinham até
150 hp no motor. Um total de 3.306 exemplares foram construídos, mais de três
vezes os 1.000 carros previstos que o chefe de competição Walter Hayes havia
imaginado.

A suspensão modificada pela Lotus 
O motor 1,6 litro com 150 hp
Chapman instalou este motor, acoplado a um câmbio manual
de quatro marchas, com carcaça em alumínio, com as relações do Lotus Elan;
carburadores que captavam o ar fresco do nariz do carro, um radiador maior e de
maior capacidade e cardã em peça única com diâmetro de 3 polegadas. A suspensão
traseira foi rebaixada e redesenhada com molas e amortecedores verticais, em
vez das lâminas, com braços de arrasto para posicionar o eixo; e havia um braço
triangular, com o vértice fixado na carcaça do diferencial e os tirantes presos
à carroceria. A carcaça do diferencial também era de alumínio, visando a
redução do peso.
A suspensão dianteira também foi modificada, com molas
mais curtas e amortecedores mais firmes, com braços forjados em vez dos
estampados, o camber e o cáster foram alterados e barras estabilizadoras foram
instaladas para melhorar o desempenho nas curvas. O sistema de direção recebeu
novos tirantes, a caixa de direção teve a relação melhorada em 12%, e o volante
foi trocado por um de 15 polegadas, com aro de madeira e centro com o logotipo
da Lotus, e a coluna teve o comprimento reduzido, ficando pouco mais recuada, mas
os raios do volante ficaram mais cônicos, para melhorar a posição de pilotagem.
Os freios eram Girling com discos de 9,5 polegadas na
frente e tambores de 9x1,75 polegadas atrás, com servofreio. As rodas de aro 13
tinham 5,5 polegadas de tala.
No interior, novos bancos foram feitos pela Lotus, com
mais suporte lateral, mais inclinados e confortáveis. O consolo central tinha
apoio para os braços; o painel de instrumentos tinha velocímetro até 140 mph
(225 km/h), conta-giros até 8000 rpm, marcadores de combustível, pressão do
óleo, temperatura da água, similar ao do Lotus Elan.

Ford Consul Cortina Sports Special, mais conhecido
como Lotus Cortina
A carroçaria do Lotus Cortina recebia o piso do Sedan
2 portas Type 74 Saloon, reforçado, para dar mais rigidez às torções. Era feito
na fábrica de Dagenham, mas fora da linha normal de produção, nos estágios
iniciais da construção do monobloco. Depois recebia os demais componentes
(faróis, vidros, luzes, aquecedor, limpadores de para brisa, motor, fechaduras
e outros itens). Só então ele era enviado para Cheshunt, a fábrica da Lotus em Hertforshire,
Reino Unido, para montagem final com os componentes especiais da Lotus e a
decoração final.
A Lotus substituía as portas, capô do motor e do porta-malas
por peças feitas de alumínio, a bateria era realocada no porta-malas, as
suspensões eram modificadas e recebiam alguns componentes especiais. No
exterior, a cor Ermine White era padrão, com as faixas em Verde Sherwood,
emblemas da Lotus no final delas e na grade dianteira.
Em janeiro de 1963, o Consul Cortina Sports Special
foi lançado, mas ao chegar ao mercado, passou a ser conhecido como Lotus
Cortina pela imprensa automotiva. Michael Turner foi o ilustrador que fez as
imagens da brochura de lançamento do Lotus Cortina, e a figura mostra Colin
Chapman no banco do passageiro, e concluímos que o piloto é Jim Clark, que fez
vários testes nos carros de pré-produção ─ tanto do carro de rua como do Lotus
Cortina ─ e se tornou um embaixador, para divulgar o Lotus Cortina, a Ford, a
Lotus, e o esporte motor da Inglaterra nos anos 1960.
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| A imagem de Jim Clark fazendo curvas em três rodas ficou antológica |
O Team Lotus corria no Reino Unido, enquanto Alan Mann Racing competia nas pistas da Europa, e a Ford americana inscrevia o Lotus Cortina na Trans-Am na classe abaixo de 2000 cc. Conseguiu pódios no Campeonato Austríaco de Carros Sedan, no Campeonato Sul-Africano de Sedan Nacionais, no Campeonato de Gelo Sueco e no “Wills” Seis Horas da Nova Zelândia. No 1964 BRSCC British Saloon Car Championship, Jim Clark, correndo com o Lotus Cortina, venceu todas as 8 etapas, sagrando-se campeão invicto na Classe B. São famosas as imagens de Jim Clark fazendo as curvas em apenas três rodas com o Lotus Cortina, e conta-se que uma ocasião, Chapman andou com Clark e se surpreendia com a forma com que ele entrava nas curvas, fazendo uma trajetória diferente do habitual (Chapman também correu como piloto), e Clark explicou que cada carro exigia dele um comportamento diferente (ele corria com os Formula Um e Dois).
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| O Lotus Cortina de Jim Clark, campeão da temporada de 1964 |
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| Evento em homenagem aos 50 anos da vitória de Jim Clark |
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| Outros Lotus Cortina também estavam presentes |
Em 1965, correndo pela Alan Mann Racing, Sir John
Whitmore venceu o Campeonato Europeu de Carros de Turismo em sua classe; Jack
Sears venceu o Campeonato Britânico de Carros Sedan, Jacky Ickx venceu o
Campeonato Belga de Carros Sedan, e o carro venceu o New Zealand Gold Star
Saloon Car Championship, a Snetterton 500 e as Seis Horas de Nürburgring.
O Lotus Cortina foi um sucesso também nos Rallies, com
Vic Elford e David Seigle-Morris chegando em 4º no Tour de France de 1964 (10
dias e 6.400 km), e vencendo em sua classe. Chegou em sexto na geral e primeiro
na categoria Handicap, no RAC Rally com Taylor e Brian Melia; foi muito
competitivo em 1966, no Rally de Monte Carlo, Rally dos Alpes, Rally de San
Remo, Tulip Rally, Acropolis Rally, Geneva Rally, Swedish Rally e no Australian
Rally Championship. Jim Clark também correu com o Lotus Cortina em Rallies, mas
sofreu com a confiabilidade dos carros, chegando em terceiro no Canadian Shell 4000;
segundo no Rally da Grécia e quarto no Rally da Polônia.
Com pouco mais de 3.000 exemplares fabricados, o Lotus
Cortina pode não ser tão procurado pelos colecionadores como o Lotus Elan e o
Lotus Europa, mas em setembro de 2014, um modelo Mk1 de 1966 foi leiloado no
Goodwood Revival pela Bonhams por £$ 73,703 (quase US$ 100 mil em jan/2026), e
outro também Mk1 de 1966, de um único dono, com 6.200 milhas no odômetro, bateu
o martelo no Quail Lodge da Bonhams por £115.000 ( US$ 156 mil em Jan/2026). O
carro pilotado por Jim Clark em 1964 foi leiloado em 2007 pela quantia de £136,800
(US$ 185.000 em jan/2026). Nada mal para um sedan de apenas 96 cid (1.600 cc).
O sucesso do Ford Cortina Mk1 proporcionou a consolidação da Ford Britânica, combinando a praticabilidade, preço acessível e uma condução dinâmica excelente, definindo o padrão para os carros familiares, e alavancando a operação da Ford na Grã-Bretanha.
Ele foi mais do que um carro: seu planejamento
detalhado e a execução perfeita do Project Archbishop demonstrou a qualidade do
trabalho em criar um carro excelente, no prazo e no custo previsto. As gerações
posteriores Mk2 e Mk3 provaram estas premissas e seu sucesso foi expandido por
toda a Europa nos vinte anos seguintes.
A geração Mk1 durou apenas quatro anos, de 1962 a
1966, mas os números provam seu sucesso: 1.012.391 exemplares saíram da fábrica
de Dagenham, em Londres, tornando-se um dos carros mais bem-sucedidos e
influentes no mercado automobilístico britânico.
Da minha coleção
O Lotus Cortina é um Hot Wheels, da linha normal (Mainline), e saiu na Serie Compact Kings, na escala 1:64. Ele reproduz o carro com que Jim Clark venceu o 1964 British Saloon Car Championship de forma invicta. O detalhamento é o normal dos Hot Wheels, e até as rodas estão na escala 1:64, um ponto em que a Mattel não é tão exata assim.
Referências:
https://en.wikipedia.org/wiki/Lotus_Cortina
https://hotwheels.fandom.com/wiki/Lotus_Cortina
https://www.lotuscortinainfo.com/?page_id=401
https://www.ultimatespecs.com/car-specs/Ford/20584/Ford-Lotus-Cortina-Mk1-.html
https://www.lotuscars.com/en-NO/lotus-story/road-cars/cortina
https://en.wikipedia.org/wiki/1964_British_Saloon_Car_Championship
https://www.thetruthaboutcars.com/2014/05/mk-i-lotus-cortina-the-original-lotus-tuned-car/
https://www.escuderia.com/eficaz-en-todos-los-sentidos-el-ford-lotus-cortina-de-jim-clark-1964/
https://autoentusiastas.com.br/2017/07/jim-clark-sobre-curvas-e-uso-dos-freios/









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