Lançado em 1964, o Mustang fazia sucesso na América, e logo em 1968, a lista de motores cresceu para um V8 Cobra Jet de 428 cid (7 litros) do Cobra roadster com 425 hp, mas amansado para 335 hp; e Carrol Shelby fez um upgrade no GT350 para um GT 500, e depois para o GT 500 KR (“King of the Road” - Rei da Estrada); e mesmo com novos concorrentes, o GT 350 venceu novamente o Trans-Am Manufacturers Cup; além de ganhar o bi-campeonato do SCCA B-Production também pela segunda vez.
Sobre a potência do Mustang GT500 KR, muitos alegavam
que o valor declarado era menor do que a real, por causa das companhias de
seguro, e calculavam que ele teria cerca de 400 hp. O KR fazia de 0-60 mph em
6,9 segundo e o quarto-de-milha em 14,6 segundos.

Mustang Shelby GT500, 1968
Com o sucesso do Camaro Z/28 na categoria de 5,0 L na
Série Trans-Am da SCCA desde 1967, e o Mustang com o motor Small-Block de 289
cid (4,7 L) e o de 390 cid (6,4 L) não se mostravam à altura dos carros da
Chevrolet nas classes acima de 2,0 L (Trans-Am) e até 7,0 litros (NASCAR).
Então, a Ford respondeu com o Mustang Boss em 1969 e 1970, equipado com o motor
de 302 cid (4,9 L) e o Big-Block de 429 cid (7,0 L).
O V8 de 302 cid que equipava os Mustang Boss era bem
diferente dos 302 padrões de linha. O small-block tinha paredes entre os
cilindros mais fina e o bloco com muito mais teor de níquel. O motor V8 de 302
cid (4,9 litros) gerava 290 hp, e eliminou os anteriores 289 cid a partir de
dezembro de 1967. O virabrequim era roletado de quatro mancais, cabeçotes com
válvulas inclinadas, que podiam ser maiores do que as utilizadas no 351
Cleveland.
O câmbio tinha quatro marchas, direção com relação de
16:1, diferencial com relação de 3,5:1, amortecedores reguláveis na traseira, e
as suspensões foram rebaixadas, os freios dianteiros eram a disco, as barras
estabilizadoras tinham um diâmetro maior, os eixos e as torres de suspensões
foram reforçadas também. O exterior vinha com capô dianteiro e traseiro em
preto fosco, faixas laterais com a inscrição “302 C”, persianas no vidro
traseiro semelhantes às do Lamborghini Miura, spoiler frontal, paralamas alargados
e rodas Magnum 500 com pneus F60 de aro 15.

Mustang Boss 302, 1969
Larry Shinoda, que veio da GM, foi o responsável pelo
estilo do Mustang Boss. Ele excluiu as falsas entradas de ar à frente da caixa
das rodas traseiras; a carroçaria tinha diversos apliques aerodinâmicos, como o
spoiler dianteiro e uma asa traseira, sendo o primeiro carro de produção a ter
estes acessórios. Como curiosidade, certa vez, quando Shinoda foi questionado
sobre o que estava fazendo com o Mustang, ele respondeu: “Estou fazendo o carro
do chefe”, referindo-se a Semon “Bunkie” Knudson, que havia deixado a GM pela
Ford e levou Shinoda para desenvolver um Mustang para as corridas da Trans-Am.
“Boss”, além de significar “Chefe”, era uma gíria popular nos anos 1960 para
“excelente” ou “muito legal”, então o nome acabou ficando para a versão que
Shinoda estava criando.
A frente do Mustang Boss de 1969 era igual aos demais
da linha, mas para 1970, os faróis foram deslocados para dentro da grade
central, e o espaço foi ocupado por duas pequenas aberturas horizontais. A Ford
ficou com o vice-campeonato em 1969 e conquistou a taça em 1970.
O mais famoso Mustang 1968 certamente foi aquele 390
utilizado nas filmagens de “Bullit”, com Steve McQueen interpretando
Frank Bullit, atuando na que é considerada a mais emocionante perseguição do
cinema de todos os tempos.
Da minha coleção
O Mustang 1968 da Racing Champions reproduz um modelo que teria sido utilizado por Richard “Dick” Trickle, nas corridas da NASCAR no final dos anos 1960. Apesar da decoração característica dos carros que competiam naquela época, Trickle corria com o número 99, em vez do 90 gravado na miniatura, e seus carros eram pintados com uma cor púrpura com teto em branco. Até onde pesquisei, não há registros de que Trickle correu realmente com um Mustang 1969.
Dick Trickle foi um dos maiores vencedores da NASCAR, nas “Short Tracks”, pistas ovais com menos de uma milha de extensão, começou a correr em 1957, com 16 anos e um velho Ford 1950, e demorou mais 16 anos para começar a vencer, mas depois, não parou mais.

Dick Trickle
Estima-se que ele largou em mais de 2.200 corridas, e
venceu cerca de 1.200 delas, sendo considerado o piloto mais vitorioso nas
“Short Track” da história. Entre todas, conta-se 67 vitórias em 1972, sete
campeonatos ARTGO em nove anos entre 1979 e 1987, bicampeão na ASA AC-Delco
Challenge em 1984 e 1985; “rookie of the year” no USAC Stock Car de 1968, “rookie
of the year” no NASCAR de 1989.

Mustang 1970, apelidado de "Purple Knight" (Cavaleiro Púrpura")
Sempre correndo com os Ford, depois de muitos
problemas nas temporadas de 1974 e 75, trocou pelos modelos da GM em 1976,
vencendo 40 corridas na temporada. Entrando pelos anos 1980, continuou
competindo na NASCAR, e em 1989, aos 48 anos, foi considerado “rookie of the
year” na Winston Cup Series, e também o mais idoso piloto a competir na
categoria. Correu 303 provas, não foi campeão, mas terminou cinco vezes em
terceiro, 15 vezes ficou entre os cinco melhores e 36 vezes entre os 10 melhores.
Nos anos 1990, Dick Trickle usava o duplo sentido do
seu sobrenome (“trickle” podia significar “devagar, lento” em inglês) para
conseguir popularidade, e frequentemente, os locutores das corridas mencionavam
em que lugar ele terminara a corrida, após darem os destaques aos vencedores.
Também, como a Wiston Cup era patrocinada pela famosa marca de cigarros, ele fez
um buraco no capacete, para poder fumar durante as corridas, e quando a NASCAR
autorizou-o a fumar durante as bandeiras amarelas, ele instalou em seu carro um
isqueiro para acender os cigarros.

Voltando aos Ford, na NASCAR
Mesmo não tenho muito sucesso continuou correndo na
NASCAR, e a partir de 1984, na Busch Series, teve 158 largadas, com 24 top 5 e
42 top 10; e seguiu competindo nos anos 2000, em eventos ocasionais em
Wisconsin, até se aposentar em 2007 definitivamente das pistas.
Dick Trickle passou a sofrer de severas dores crônicas,
e nenhum tratamento foi eficaz para descobrir as origens das dores e minimizar os
efeitos em seu corpo. Depois de muitos anos lutando com sua saúde, foi ao Cemitério
Forest Lawn, em Boger City, Carolina do Norte, em que sua neta está enterrada e
ligou para o 911 (Emergências nos EUA), dizendo que “Vai haver um corpo,
suicídio”, e quando a operadora perguntou quem iria se suicidar, ele respondeu:
“Eu sou o escolhido”. Ele foi encontrado ao lado de sua caminhonete, no dia 16
de maio de 2013, morto por um disparo de arma de fogo.
O La Crosse Fairgrounds Speedway criou em 2007 a
corrida Dick Trickle 99, com 99 voltas (três baterias de 33 voltas) durante a
fim de semana anual da Oktoberfest. Vários circuitos do meio-oeste tem corridas
Trickle Memorial, sendo a maioria com 99 voltas, que era o número do seu carro.
Comenta-se que o personagem de Tom Cruise em “Dias de
Trovão” se chama Cole Trickle em homenagem a Dick, mas outras fontes dizem que
foi baseado em outro piloto famoso, Tim Richmond.
Referências:
https://www.tellmebest.com/1legendary-richard-trickle-story-race/
https://leotogashi.blogspot.com/2022/11/ford-mustang-parte-ii-primeira-geracao.html

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