quarta-feira, 12 de junho de 2024

SNAKE & MONGOOSE – Drag Racing Stars

Snake e Mongoose

Com o desenvolvimento das corridas de Dragsters, os carros passaram a ter cada vez mais potência, e as modificações para conseguir mais desempenho foram surgindo, portanto, a NHRA (National Hot Rod Association) foi ajustando o regulamento para criar novas classes e categorias para estes novos carros.

A categoria dos Funny Cars ficou definida como carros de série, na aparência, porém eram construídos sobre um chassi tubular, com o piloto na parte posterior do motor, e o entre-eixos era alongado para buscar um equilíbrio direcional, com motores de mais de 1000 hp, levavam o público ao delírio nos poucos segundos para cobrir os 402 m de pista.

O Plymouth Barracuda de Don "Snake" Prudhomme

Don Prudhomme

Don Prudhomme começou sua carreira em 1960, quando deixou seu emprego numa oficina de pintura para viajar com Tommy Ivo, já uma estrela nas corridas de arrancada. Insatisfeito com sua função na equipe de Tommy Ivo, comprou um dragster construído por Kent Fuller para Ivo e substituiu o motor Buick por um Chrysler comprimido de 392 cid, preparado por Dave Zeuschel, e com ele venceu o Bakersfield March Meet de 1962.

Na metade dos anos 1960, Don Prudhomme fazia sucesso nas Drag Racing com os Top Fuels e Funny Cars, ganhando seu primeiro título da NHRA em 1965, chegando a conquistar 14 vitórias com os Top Fuel e 35 vitórias com os Funny Cars nos anos seguintes.

No início dos anos 1970, Don corria com o Plymouth Barracuda, e já era chamado de “Snake”, devido à rapidez com que dava as partidas, como a rapidez de uma serpente dando o bote na presa. Nessa época, Tom McEwen começou a surgir como um adversário de peso para Prudhomme, e numa jogada de marketing, assumiu o apelido de “Mongoose”, ou “Mangusto”, o predador das cobras...

Prudhomme venceu os campeonatos da NHRA Funny Car de 1975, 1976, 1977 e 1978, sendo o primeiro piloto a superar os 5 segundos nos 402 metros e atingir mais de 250 mph (402 km/h) no final da reta com um Funny Car.

Tom "Mongoose" McEwen, com seu Plymouth Duster

Tom "Mongoose" McEwen

Tom McEwen, correndo com os Top Fuel, atingia 170 mph em 1965, marca memorável para a época, e em 1967, com Ed Pink e Don Prudhomme, ajudou a desenvolver uma embreagem deslizante, e sua contribuição no desenvolvimento dos pneus junto à Goodyear, ajudaram a aumentar drasticamente a performance durante as próximas temporadas. Ele notou que os pneus de caminhões que utilizavam no eixo traseiro dos dragsters deixavam duas linhas pretas na superfície da pista, marcadas pelas bordas externa e interna da banda de rodagem. Ele deduziu que a área central da banda não estava tendo o contato pleno com o asfalto nas arrancadas, prejudicando a aderência e reduzindo a transmissão da potência nas acelerações.

Don Prudhomme (esq.) e Tom McEwen (Dir.)

Tom McEwen recebeu o apelido de “Mongoose” do seu engenheiro de motores Ed Donovan, quando se firmava como o principal adversário de Don “Snake” Prudhomme; pois se Don era rápido como uma serpente para dar as largadas, Mongoose, ou Mangusto, era o predador por excelência das serpentes. Tom venceu apenas cinco campeonatos da NHRA durante os 45 anos em que competiu nas corridas de dragsters, mas ele é reconhecido como pioneiro em trazer patrocinadores de fora do mundo automotivo, e convenceu a Mattel a estampar o logotipo dos Hot Wheels tanto no seu carro como o de Prudhomme, e ambos formaram a “Wildlife Racing”, promovendo cada vez mais sua rivalidade como espetáculo profissional, tornando suas disputas de maior audiência nas pistas, e explodindo as vendas dos carrinhos da Mattel. 

Os transporters que levavam os carros para pistas de todo o país

Amigos fora das pistas, Prudhomme e McEwen protagonizaram anos de disputa no cenário das corridas de Dragsters, cativando o público a cada vez que se enfrentavam nas pistas de todo o país. Tom era um “promoter” por excelência, e o renome que ambos conseguiram nestes anos marcaram as competições de Dragsters para sempre.


A famosa Lion’s Drag Strip é conhecida como a pista onde todas as grandes estrelas do automobilismo da California começaram suas carreiras de sucesso, então foi nesta pista que Snake e Mongoose promoveram sua “Last Drag Race”, antes de se aposentarem, no ano de 1972. Esta corrida foi vencida por Tom McEwen; e sua outra grande vitória sobre Snake foi na final do NHRA US Nationals de Funny Cars, realizado em Indianápolis no ano de 1978, também vencida por McEwen, com o detalhe que sua vitória ocorreu poucos dias após seu filho ter falecido de leucemia. Nesta competição, ambos se enfrentaram competindo com os Corvette Funny Car, Snake com o amarelo e Mongoose com o cinza prateado.
Mongoose, com o Corvette Funny Car, no NHRA US Nationals

Snake, com o Corvette Funny Car, no MHRA US Nationals


Nas palavras de Don Prudhomme:

“Fãs de todas as idades vêm até mim na pista e falam sobre Snake, Mongoose e Hot Wheels o tempo todo”, disse Prudhomme. “A parceria Hot Wheels realmente ajudou a construir nossa imagem e status e é uma sensação boa reviver memórias tão boas de anos passados.”

“O relacionamento com a Hot Wheels é definitivamente um ponto alto da minha carreira no automobilismo”, acrescentou McEwen. “A parceria com a Hot Wheels não foi apenas um grande negócio para nós, mas também para todo o esporte das corridas de arrancada.”

Snake & Mongoose, the movie


Em 2013, foi lançado nos cinemas americanos o filme Snake & Mongoose, dirigido por Wayne Holloway, com os atores Jesse Williams e Richard Blake como “The Snake” e “The Mongoose”. Em tom de documentário, o filme conta a rivalidade dos dois pilotos, como contribuíram para aumentar a popularidade das corridas de Dragster, e mostra como a parceria com a Mattel ajudou a revolucionar os conceitos de marketing esportivo desde então.

Da minha coleção

O Plymouth Barracuda 1970 de Don "Snake" Proidhomme


O Snake II reproduz o carro de Don Prudhomme e saiu na linha dos Hot Wheels de 1971. É um casting do Plymouth Barracuda de 1970, e o Plymouth Duster de Tom McEwen é um casting de 2012, ambos saíram na Série NHRA Championship Drag Racing, os dois são trabalho de Larry Wood, um dos maiores designers que trabalharam na Mattel, criando modelos Hot Wheels.

O Plymouth Duster de Tom "Mongoose" McEwen


A Mattel patrocinou os carros de Snake e Mongoose em 1973, mas este último apenas o Plymouth Duster 1970 vermelho, pois Tom McEwen usou muitos carros diferentes no período em que competiu nas diversas categorias de Dragsters americana. E este modelo serviu de base para Larry Wood criar a miniatura.

Os casting iniciais, de 1970 até 1973 utilizavam os mesmos moldes (Barracuda 1970) para ambos os carros, porque a Mattel passava por dificuldades e tinham de economizar nos custos de produção, e as miniaturas vinham apenas com decalques que diferenciavam Snake de Mongoose. Em 1994, os casting foram refeitos, e Mongoose ganhou um molde mais fiel ao seu carro original.


Snake e Mongoose, como os Dragsters, levantam a carroçaria para acesso do piloto e mecânica, tem a gaiola de proteção, e a decoração similar entre eles traz os logos Hot Wheels que patrocinavam estes pilotos. As rodas são as RRMag especiais e as traseiras (maiores) trazem o logo Goodyear estampado nas laterais. Estes exemplares foram produzidos na Tailandia, ao passo que os casting anteriores (antes de 1994) eram feitos em Hong Kong e nos EUA.



Em 2018, saíram na Série Team Transport Mix 2, dois sets com o caminhão Retro Rig, com o Plymouth Cuda de Snake e o Plymouth Duster de Mongoose, com uma decoração levemente diferente das que saíram em 2012. O caminhão Retro Rig não é licenciado, ele é usado em outros sets da Série Team Transport, tem apenas as decorações correspondentes de Snake e Mongoose.


Em 2022, a Mattel lançou um pack na Série Car Culture 2-Pack (Mix 4) com os dois modelos de Snake (’72 Plymouth Cuda FC) e Mongoose (Plymouth Duster Funny Car), com os mesmos casting, também com uma decoração levemente diferente das que saíram em 2012. Este pack consegui com um vendedor no Japão, que levou quase 4 meses para chegar aqui, mas veio somar na coleção destes dois carros que faziam a platéia vibrar a cada arrancada que disputavam nos anos 1970.




O Corvette Funny Car reproduz o carro que Mongoose utilizou no NHRA US Nationals, de 1978, contra Snake. É da Série Dragstrip Demons, saiu em 2009 e tem um acabamento caprichado, base de metal, Real Riders, rodas especiais com pneus de borracha, os pneus traseiros tem o logo Goodyear gravados nas laterais, também levanta a carroçaria, tem uma grade de suporte para ficar aberto, como os originais.

Referências:

https://hotwheels.fandom.com/wiki/Snake

https://hotwheels.fandom.com/wiki/Plymouth_Barracuda_Funny_Car_(1994)

https://www.nytimes.com/2009/10/22/automobiles/autospecial2/22HOT.html

https://www.dodgegarage.com/news/article/racing/2023/08/nhra-drag-racing-royalty-don-prudhomme-part-ii.html

https://axleaddict.com/cars/Mongoose-vs-The-Snake--The-Greatest-Rivalry-In-Drag-Racing

https://www.sportscarmarket.com/profile/1972-plymouth-barracuda-snake-ii-funny-car

https://axleaddict.com/cars/Mongoose-vs-The-Snake--The-Greatest-Rivalry-In-Drag-Racing

https://en.wikipedia.org/wiki/Snake_&_Mongoose

https://hotwheels.fandom.com/wiki/Mongoose

quinta-feira, 6 de junho de 2024

Hirohata Merc


Robert Masato (“Bob”) Hirohata comprou um Mercury 1951, aos 21 anos,logo depois de deixar a Marinha dos Estados Unidos em 1952. Antes de se alistar, ele tinha um Chevrolet 1949 customizado pela Barris Kustoms, mas ele queria um carro mais exclusivo, e ao ver um Mercury 1949 com o teto rebaixado por Sam Barris (irmão de George), ele encontrou o Mercury Club Coupe 1951 em San Fernando Valley.

O carro era relativamente novo, e como ninguém havia customizado este modelo, Hirohata decidiu que este seria o seu novo carro. Levou-o à Barris Kustoms em 1953 e disse a George e Sam que teriam carta branca para fazer o melhor que sabiam nele. Ele gostou do estilo que eles haviam feito no Mercury 1940 para Nick Matranga, e pediu para seguir o estilo das janelas laterais que davam uma aparência de teto rígido ao modelo, além de algumas pequenas alterações em outros pontos do carro.

Hirohata planejava levar o carro modificado para a Motorama de 1953, mas George Barris enrolou no prazo por 83 dias, trabalhando em outros carros. Intimado por Hirohata, Barris juntou 10 pessoas e trabalhou freneticamente no Mercury por 14 dias para finalizar o carro.

Bob Hirohata com seu Mercury

Quando Hirohata foi ver o Mercury, podia jurar que não era o mesmo carro que havia deixado lá três meses antes. Cada centímetro do Mercury foi modificado por Sam e George Barris, e Frank Sonzogni. Sam removeu os pilares B, cortou e soldou a parte superior das portas ao teto e transformou o teto rígido do Merc: a altura foi reduzida em quatro polegadas na frente e sete polegadas na parte traseira. A vigia original foi reinstalada com um novo ângulo e seguiu a nova inclinação do teto. Assim também o para brisa em “V” ficou com uma nova inclinação e teve de ser re-enquadrado, formando também uma nova linha, com o design mais limpo eliminando as calhas das para as portas. Foi o primeiro Mercury 1951 a ter o teto rebaixado, com a capota refeita.

As antenas nos para-lamas traseiros

Os para lamas traseiros foram estendidos, e receberam cada um uma antena de rádio, as lanternas traseiras foram substituídas por outras do Lincoln Capri 1952, mas cortadas para se encaixar no design. Os para lamas dianteiros foram estendidos por 10 cm e os aros dos faróis do Ford 1952 foram encaixados nas aberturas. Os cromados foram eliminados do capô, porta malas e laterais; o recorte da tampa do porta malas foi arredondado, e o capô ficou mais pontiagudo, estendido ate a grade, que foi reconstruída com partes de três grades do Ford 1951, com ponteiras “Dagmar”, recebendo uma extensão feita exclusivamente para os piscas abaixo dos faróis, que receberam lentes feitas à mão com plástico transparente.

Bob Hirohata no interior do Mercury

O design das portas foi refeito, para receber os frisos do Buick 1952 e criar a área no prolongamento das caixas das rodas dianteiras, estendendo-se até o início das caixas das rodas traseiras. A linha dos para lamas dianteiros se prolongava em declive, descendo até se encontrar com esta área à frente das caixas das rodas traseiras; e sobre os para lamas traseiros foi aplicada uma expansão, com um abertura para auxiliar a refrigerar os freios traseiros, e estas cavidades tiveram três pontas feitas de uma grade do Chevrolet 1952 encaixadas no local. As caixas das rodas traseiras receberam uma cobertura com um acabamento na parte inferior para esconder as rodas, e a caixa das rodas dianteiras recebeu o mesmo acabamento.

O carro foi rebaixado cortando as molas dianteiras, mas na traseira o encaixe das molas no chassi foi refeito para ficar mais baixo do que a dianteira do veículo. Assim também o túnel de transmissão teve de ser refeito para acomodar o eixo cardã na carroçaria rebaixada. Sam Barris e Frank Sonzogni fizeram a maior parte da customização no Mercury.



Ao todo, foram 97 dias que o Mercury ficou com a Barris Kustoms, mas o carro ficou parado lá por cerca de dois meses até a equipe começar a trabalhar. Numa entrevista que Hirohata concedeu à revista Street Rodder em 1977, ele disse que os assentos  e painéis das portas foram levados para a Carson Top Shop para serem feitos enquanto a carroçaria ainda estava sendo feita; estofados com couro Naugahyde branco e verde. O porta malas e o piso foram estofados pela Kustom Shop da Gaylord em Lynwood, antes que os bancos e laterais chegassem. O painel original recebeu botões de plástico personalizados pelo próprio Hirohata, e ganharam popularidade com o carro sendo logo depois colocados em produção para o mercado pela Cal Customs. A peça era pintada e foi decorada pelo lendário Von Dutch (Kenneth Robert Howard), pin striper famoso por seu trabalho em personalizar carros customizados. Seu trabalho no Hirohata Merc ficou conhecida pela figura que fez no painel chamada de “This is the City”.

No início de 1952, George Barris pintou o Hirohata Merc em dois tons de Sea Foam Green, ou Ice Green na maior parte da carroçaria e com Organic Green na lateral inferior abaixo do friso. Ao todo, foram trinta camadas de pintura no carro todo, aplicadas por Hershel “Junior” Conway, que trabalhava na Barris Kustoms. Hirohata equipou o carro com pneus de faixa branca,e  calotas sombrero do Cadillac 1949 (posteriormente substituídas pelas do Cadillac 1953), e dois refletores Appleton S-552 logo à frente do para brisa.

Quando Barris apresentou a conta de US$ 3,500 (atualizados para US$ 36,500 em 2021), Hirohata conta que ficou em choque, e disse “Tive que vender tudo o que tinha e colocar minha tia-avó em risco para pagar o carro, mas valeu a pena.”


Assim que o carro ficou pronto, começou a aparecer em várias revistas e a ganhar troféus em feiras e exposições de automóveis por todo o país. Hirohata queria assistir as 500 Milhas de Indianápolis em 1953, então 8 dias antes de partir na viagem de 4.000 km, trocou o motor Flathead original por um V8 do Cadillac 1953 com válvulas no cabeçote. Dick Lyon da Lyon Engineering fez a troca, e adicionalmente, trocou a embreagem e o volante por um do Oldsmobile. A Nates Muffler Shop refez os cabeçotes, e Hirohata pegou a Rota 66 para o 4º Custom Show Annual de Indianápolis, onde conquistou o primeiro lugar.

A viagem foi reportada na revista Rod & Custom de outubro de 1953 com o título “Kross Kountry in a Kustom – Mile After Mile In My Modified Mercillac”. O único problema que tiveram foi que o Mercury estava muito rebaixado, então, no retorno para casa, levantaram a suspensão para que não tivessem contratempos.

Hirohata dirigia o carro quase diariamente, pois não possuía outro, e por volta de 1954, Barris fez algumas alterações no Mercury, removendo as antenas dos para lamas traseiros. Também trocou a pintura por um tom de verde abacate.


Numa edição da revista Rodding and Re-Styling em 1955, foi publicada uma carta de Bob Hirohata contando que possuía um Mercury 1951 re-estilizado pela Barris Kustoms, de Los Angeles, na cor Golden Lime (lima dourada). Ele cita que o motor é cromado e que o carro foi equipado com um radio bidirecional, alto falantes traseiros portáteis com cabo de extensão de 50 pés para praias e piqueniques, calotas folheadas a ouro, estofamentos personalizados até no porta-malas, caixa de ferramentas com os cabos das chaves de fendas feitos exclusivamente para combinar com os botões do painel. Nesta época, o Hirohata Merc havia ganho um total de 26 troféus em feiras e eventos automobilísticos na California, Indiana e Michigan, e relata-se que o Merc acumulou um total de 184 destes troféus até hoje. O Hirohata Merc recebeu da revista Rod & Custom’s o título de “Vinte Melhores de Todos os Tempos”, em 1991.

A lateral depois do acidente

Bob Hirohata vendeu o Mercury para Robert Waldsmith em 1955, e em 1957, sofreu um acidente em que todo o lado esquerdo ficou danificado. Sam Gates fez o reparo após o acidente, e pintou o carro de Ouro Metálico com laca transparente. Waldsmith vendeu o carro para Doug Kinney, que na época trabalhava para Ed “Big Daddy” Roth, por 200 dolares, e a tinta dourada havia rachado muito por causa do sol, e para reformar, foi pintado de verde limão. Doug ficou com o carro, armazenado numa garagem por anos.

Segundo Ed Roth, em uma ocasião em que viu o carro, ele estava pintado em primer e tinha um grande amassado no capô. Doug foi ameaçado de despejo, e vendeu o carro para uma concessionária.


Em 1959, um jovem chamado Jim McNiel, de 16 anos, foi com seu tio Bob a uma loja de carros usados, procurando um carro para comprar. Ao encontrarem o Mercury dourado, bem surrado, Bob disse para Jim: “Você precisa comprar este carro”, e Jim comprou o carro, com sinais de ter sido muito usado, por US$ 500. Jim usava o carro para ir à escola e outros lugares, até se casar em 1964. Não houve mais notícias sobre o Hirohata Merc desde então, e somente na década de 1980 customizadores tiveram o interesse despertado pelo destino do Mercury e começaram a rastrear os proprietários do carro.

Em 1988, Roger Honey e Joe Bailon foram até a casa de Jim McNiel para conferir se o carro ainda estava com ele. Nesta época, Pat Ganahl, editor da revista Rod & Custom entrou em contato com Jim McNiel, e propôs restaurar o Hirohata Merc, sendo todo o processo documentado pela revista. McNiel ficou hesitante, mas concordou quando Ganahl garantiu que a revista pagaria por tudo. “Foi como tirar um peso (dos meus ombros) que eu carregava comigo”, diz McNiel. “E foi isso que finalmente me fez continuar.”


Jim McNiel e Joe Bailon

Durante a restauração, Ganahl comenta:

“O filho de Jim ainda estava em casa na época e tinha uns 16 anos, e os dois faziam o trabalho e eu tirava as fotos e publicava as histórias”, diz Ganahl. “Nunca pensei que veria o Hirohata Merc novamente, muito menos que seria capaz de cobri-lo e publicá-lo na minha revista e torná-lo meu carro de projeto. Passei muito tempo na casa do Jim e ele fez tudo sozinho, exceto que eu contratei um cara para construir a transmissão. Jim reconstruiu o motor sozinho.”

Junior Conway e Jim McNiel

“Ele foi inflexível para que fosse restaurado à forma como era em 1952. Quando ele desmontou o painel, havia cartões de visita de Bob Hirohata e George Barris que impediam o alto-falante de chacoalhar, e ele os colocou de volta lá quando reinstalou os alto-falantes.”

O trabalho durou quase sete anos antes de McNiel decidir que queria que o Merc fosse concluído a tempo de ser apresentado em “Hot Rods and Customs: The Men and Machines of California’s Car Culture”, uma exposição de 1996 no Oakland Museum of California. De repente, o projeto entrou em alta velocidade – assim como aconteceu em 1952, quando Bob Hirohata queria que o Merc fosse concluído a tempo para Motorama.

Depois de raspar a tinta velha ─ a esposa de Jim, Sue, guardou as lascas e as transformou em brincos ─ McNiel recebeu uma oferta irrecusável: Herschel “Junior” Conway queria pintá-lo para ele. Conway trabalhou na Barris Kustoms durante décadas, mas abriu sua loja Junior’s House of Color depois que o Hirohata Merc foi concluído. Para McNiel, foi inimaginável! “Junior era um cara Barris – um cara 100% Barris”, então ele imediatamente disse que sim.

Conway comentou depois:

“Era um pedaço tão grande da história que precisava ser resgatado e apresentado, e senti que era meu trabalho fazê-lo”. Ele imediatamente começou a fazer ligações para trazer outras pessoas a bordo. “Quando liguei e pedi a todos os meus amigos que viessem ajudar a consertar o carro porque havia um prazo, ninguém disse não. Não havia dinheiro para ninguém… [mas eles responderam] ‘Estarei lá para ajudá-lo’”.

Eles usaram um espectrógrafo para combinar com as cores originais da pintura, e Conway insistiu em tinta laca para duplicar a aparência que Barris Kustoms havia criado. Como não é mais possível comprar tinta laca, Ganahl procurou a PPG Industries em Detroit e pediu um favor. A PPG concordou em fazê-lo se Ganahl adoçasse o acordo com uma assinatura gratuita de revista. Feito.

“Eu estava lá quando as latas chegaram”, lembra Ganahl, “… Junior abriu, [cheirou] e disse: ‘Ah, a coisa real’”.

A impressionante pintura do Merc não foi todo o trabalho que os amigos de Conway contribuíram. Por exemplo, Frank Sonzogni removeu uma das pontas do escapamento e construiu outra com as mesmas ferramentas que usou para criar o original. Foi um momento emocionante para McNiel.

Da direita para a esquerda: George Barris,
Junior Conway e Frank Sonzogni

“Eu estava segurando a peça e ele batia nela – o mesmo cara com as mesmas ferramentas, cerca de 60 anos depois”, diz ele. “Eu estava com lágrimas nos olhos… foi muito legal.” George Barris até passou por aqui para verificar o progresso deles.

A equipe mal cumpriu o prazo. “O que fizemos em uma semana teria levado duas semanas em qualquer outro momento”, diz Conway. O Hirohata Mercury, visto em público pela primeira vez em décadas, voltou a ser um sucesso. As pessoas acorreram a ele onde quer que fosse e, eventualmente, foi até mesmo um vencedor de classe no Pebble Beach Concours d'Elegance.

“Eu acho que nada chegará a esse nível”, diz Conway. “Fazer parte de um projeto como o Hirohata Merc… O dinheiro não compra. Vem daqui.” Disse, apontando para seu coração.

McNiel fica comovido com a quantidade de pessoas que são impressionadas pelo carro. É por isso que ele prometeu continuar mostrando, compartilhando e cuidando disso. “O Hirohata Merc não é meu”, diz ele. “Quer dizer, eu sou o dono. Mas tem a ver com as pessoas.”

Em 2011, o Hirohata Merc foi exibido na exposição Customs Then and Now, no Grand National Roadster Show. Em abril de 2011, também foi exibido no Custom Motor Show, desta vez em Elmia, Suécia.


Em 12 de abril de 2017, o Hirohata Merc foi anunciado como o 17º veículo a ser adicionado ao Registro Nacional de Veículos Históricos, em reconhecimento à sua importância na história automotiva americana. O anúncio foi feito na cerimônia de abertura da Terceira Exposição Anual “Cars at the Capital”. O evento tem a parceria da Historic Vehicle Association com o Departamento do Interior dos Estados Unidos da America, o Registro Histórico de Engenharia Americana e os arquivos da Biblioteca do Congresso. Assim, o Hirohata Merc foi exibido numa caixa de vidro iluminada no National Mall de 27 de abril a 4 de maio de 2017. O documentário Hirohata Mercury em quatro partes foi criado como parte da iniciativa de vídeo Drive History do HVA, que apresenta veículos no Registro Nacional de Veículos Históricos e também apresenta conservacionistas veteranos, historiadores e especialistas automotivos.

Em 7 de maio de 2018, Jim McNiel faleceu devido a insuficiência cardíaca, e o Hirohata Merc permaneceu na família. Em 20 de março de 2021, após 60 anos de posse do carro na família, Scott e Darla McNiel, filhos de Jim, anunciaram sua venda no Instagram.

“Nossa família tem desfrutado imensamente deste carro há mais de seis décadas e agora é hora de uma nova administração continuar seu legado”, dizia o anúncio.

O carro estava em exibição no Petersen Automotive Museum quando foi listado, e nenhum preço ou informação de contato foi publicado no anúncio. Em setembro de 2021, a Mecum Auctions anunciou que o carro seria sua principal atração no leilão Kissimmee 2022, de 6 a 15 de janeiro de 2022, em Kissimmee, Flórida. No último dia do leilão, o Hirohata Merc foi arrematado por US$ 1,950,000; um recorde para um carro customizado, que não participou de filmes ou shows de TV.

“O que é mais importante para mim é que o papel do meu pai na história e no legado do carro permaneça ligado a ele”, disse Scott McNiel. “E meu medo de que, uma vez que ele se afaste de nossa família, se torne apenas um ‘Barris Kustom’ e Jim McNiel fique de fora no processo de contar histórias.” Aparentemente, esta ligação se manterá: “Darla guardou uma nota de US$ 10 que seu pai lhe deu quando era criança. Antes de o carro ser vendido, Darla e eu escondemos os mesmos US$ 10 no carro, então Jim sempre será uma peça do carro.”

Algumas semanas depois, em 27 de janeiro de 2022, Dave Shuten, dono da Galpin Auto Sport, uma loja especializada em restaurar ícones automotivos na California, anunciou pelo Facebook que havia arrematado o Hirohata Merc, e ele foi exibido no Grand National Roadster Show de 2022.

Outros detalhes sobre o Hirohata Merc

O Hirohata Merc foi usado no filme Runnin Wild (1955), com William Campbell e Mamie Van Doren, mas a produção do  filme pintou o carro de outra cor. De acordo com um artigo do Rodders Journal, Bob Hirohata foi baleado e morto num estilo de execução em 14 de maio de 1981, e o assassinato nunca foi solucionado.

A réplica construída por Jack Walker

No início dos anos 1980, pensava-se que o Hirohata Merc havia desaparecido para sempre, por isso, Jack Walker comprou um Mercury 1951 em 1983 e começou a construir uma réplica do carro feito pela Barris Kustoms. O carro ficou pronto em 1985, sendo apresentado no Leadsled Spetacular, em Springfield, Ohio, no mesmo ano. O modelo ficou idêntico ao original, exceto pelo acabamento em pinstriping feito por Von Dutch no painel.

Jack Walker (esq.) e John D'Agostinho (dir.) 

Várias semanas antes do evento KKOA “Leadsled Spetacular” de 2016, realizado em Salina, Kansas, um parceiro de John D’Agostinho o havia contratado para construir outra réplica do Hirohata Merc (III), mas John não queria fazê-lo. John acabou conversando com Jack Walker no evento sobre a venda da sua réplica, com a intenção de exibí-lo em feiras e eventos pelo mundo, mas Jack estava hesitante, mesmo com a insistência de John e de seu parceiro durante aquele fim de semana; mas por fim, Jack Walker vendeu o modelo em 28 de agosto de 2016 para John D’Agostinho.



Leadsled é um termo aplicado ao estilo dos automóveis de série customizados principalmente com modificações de carroçaria, pintura e acabamento, mantendo-se sua identidade original, porém bastante alterados em estilo e acessórios. Rebaixamento de teto e suspensões, laterais, grades, faróis, lanternas e traseiras re-estilizadas, muitas vezes com partes de outros automóveis se recombinam para criar uma personalidade única para o modelo. O interior é totalmente refeito para se harmonizar com o estilo do carro, e normalmente a mecânica recebe upgrades, mas não chegam a ter motores com os compressores expostos, nem aerofólios e pneus de dragsters. O Hirohata Merc é considerado um dos melhores exemplos do estilo Leadslead nos Estados Unidos.


“Dagmar” é o nome que se dá para as ponteiras de para choques, que se tornaram comuns nos carros da década de 1950. O apelido foi dado a estas peças porque lembravam os seios da atriz, modelo e famosa estrela de TV nos anos 1950, cujo nome artístico era “Dagmar”.

O Cadillac 1955 com as ponteiras "Dagmar"


Da minha coleção

O Hirohata Merc da Hot Wheels em 1998

A primeira aparição deste casting foi em 1998, no Set “Legends_Barris_Kustoms_4-Car Set” com quatro carros feitos por George Barris, todos os casting foram feitos por Larry Wood. Os modelos reproduziam os carros customizados pela Barris Kustoms, e o Hirohata Merc saiu depois na Série Hot Wheels 100%, voltada para colecionadores, com melhor acabamento. O casting continuou na linha dos Hot Wheels em mais onze edições, com acabamentos Premium, mas em cores e decorações criadas pela Mattel.





O Hirohata Merc com outras decorações da Mattel


O Hirohata Merc, da Série Rod Squad, de 2024


O Hirohata Merc da minha coleção saiu na Série Rod Squad, Mainline dos Hot Wheels em 2024, com um casting refeito por Brendon Vetuskey. Larry Wood emprestou a Brendon a matriz de resina esculpida à mão do desenvolvimento anterior, que foi digitalizado em 3D para desenvolvimento. Pequenos ajustes foram feitos para melhorar os detalhes.




Apesar de ser Mainline, as rodas tentam reproduzir as originais com faixa branca, e os faróis são de plástico. Mas a simplificação cobra o preço com diversos detalhes que ficam faltando, como a pintura das lanternas traseiras, o cromado das grades dianteiras, a moldura das janelas laterais e as placas do carro. Mesmo assim, pela relevância do carro real e a representatividade da miniatura, é uma peça que valoriza qualquer coleção.

Hirohata Merc, em Metalflake Apple Green, Segunda cor de 2024



No mesmo ano de 2024, saiu a segunda cor na Mainline dos Hot Wheels, na cor Metalflake Apple Green, que certamente George Barris teria pintado o Merc se tivesse essa cor na sua época.

Referências:

https://hotwheels.fandom.com/wiki/Hirohata_Merc

https://en.wikipedia.org/wiki/Hirohata_Merc

https://kustomrama.com/wiki/Bob_Hirohata%27s_1951_Mercury

https://en.wikipedia.org/wiki/Kenny_Howard

https://kustomrama.com/wiki/Dick_Jackson

https://www.imdb.com/title/tt0048571/

https://kustomrama.com/wiki/Jack_Walker%27s_1951_Mercury

https://en.wikipedia.org/wiki/Lead_sled

https://kustomrama.com/wiki/Galpin_Auto_Sports

https://www.hagerty.com/media/car-profiles/the-extraordinary-effort-to-restore-the-legendary-hirohata-mercury/

https://www.nytimes.com/2022/01/16/business/hirohata-mercury-auction.html

https://hotwheels.fandom.com/wiki/Legends:_Barris_Kustom_4-Car_Set

https://www.customcarchronicle.com/forums/topic/the-hirohata-merc-stories/

https://www.customcarchronicle.com/news-flash/hirohata-merc-clone-going-west/