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quarta-feira, 29 de março de 2023

Porsche 935

Porsche 930 Turbo 1985

O Porsche 935 é a evolução do Porsche Carrera, de 1971, e ao longo dos anos foi recebendo mais a mais potência, primeiro nos exemplares de competição, e passando aos carros de rua na medida do possível. O primeiro Carrera (designado internamente como 930) a receber um turbo foi em 1974, correndo pela equipe Martini nas 24 Horas de Le Mans daquele ano.

O 930 foi homologado para as ruas em 1976, mas a estratégia da época era substituir o 911 pelo 924, portanto, a tecnologia turbo do 930 ficou restrita em desenvolvimento e somente em 1986 recebeu adequações da legislação de emissões para ser exportado para os EUA e Japão. Ele permaneceu no mercado até 1989, quando a plataforma “G-Series” foi substituída pela nova, que recebeu o código “964”.

Porsche 934 - 1976


Já nas competições, o 930 recebeu uma preparação mais agressiva, ganhando o código 934, com o motor flat-six RSR 3,0 litros gerando 580 hp, vencendo a temporada de 1976 do Campeonato Mundial de Marcas e o Campeonato SCCA Trans Am, este nas mãos de George Follmer, e o Campeonato europeu de GT. O 934 venceu as 24 Horas de Le Mans em sua classe por três anos consecutivos: 1976, 1977 e 1978.

O Porsche 935 era o 934 de fábrica, e vinha com o flat-six de 3,30 litros, com dois turbos e injeção mecânica de combustível, gerando 630 KW (845 hp ou 857 PS), e os turbos começavam a empurrar mesmo em baixas rotações, devido ao maior diâmetro de suas turbinas. Devido a uma brecha no regulamento, Norbert Singer, engenheiro da Porsche, descobriu que remover os faróis dos paralamas e passá-los para o spoiler abaixo da linha do para choques, era o design ideal para reduzir o arrasto e conseguir mais downforce na dianteira. A grande supremacia dos 935 acabou sendo um dos fatores para a FIA extinguir as classificações em Grupos, e em 1982 ela definiu apenas três categorias, denominadas com letras: A, B e C.


O Porsche 935 de 1978, Moby Dick

O último 935 de fábrica foi construído somente para as 24 Horas de Le Mans de 1978, e os aprimoramentos aerodinâmicos, com uma frente mais avançada e a cauda estendida, com o enorme aerofólio, e com sua cor branca, fizeram a imprensa especializada batizá-lo de “Moby Dick”. Apesar de ser 15 segundos mais rápido do que as versões anteriores, e chegar a 367 km/h na reta de Mulsanne, ele chegou em 8º lugar na geral, atrás de outros três 935 de equipes independentes.

Pode-se afirmar que o 935 foi o carro mais vitorioso nos tempos da transição dos motores aspirados para os turbocomprimidos, e credita-se à Porsche um papel de destaque, primeiro nas competições, e depois levando a tecnologia para os carros de rua.

Da minha coleção

Porsche 935, Hot Wheels, mainline 2015

Os Porsche 935 são Hot Wheels, o nº 85 é um Mainline de 2015, e o outro é da grife Urban Outlaw, de Magnus Walker, grande colecionador de Porsche. Não há informações se ele tem um 935 com esta decoração, mas o visual segue o do 911 mais famoso dele.

Porsche 935, com a decoração da griffe "Urban Outlaw", de Magnus Walker


Referências:

https://www.porsche.com/brazil/pt/aboutporsche/christophorusmagazine/archive/383/articleoverview/article10/

https://hotwheels.fandom.com/wiki/Porsche_935_(2021)

https://leotogashi.blogspot.com/2022/03/porsche-carrera-rs-e-sua-evolucao-parte.html

terça-feira, 7 de fevereiro de 2023

Mercedes-Benz Renntransporter 1955


O Mercedes-Benz Renntransporter foi projetado para ser o transporte de carros de corrida mais rápido do mundo, idealizado por Rudolf Uhlenhaut, para levar os W194, o 300SL e o 300 SLR, além do W196 monoposto; para as pistas da Europa durante a década de 1950. Apelidado de “Blue Wonder” (Maravilha Azul), foi construído com base no chassi do 300SL, com a cabine avançada à frente do eixo dianteiro, com o motor montado logo após a cabine, era o mesmo do 300 SL, um seis cilindros em linha, de 2996 cc, com injeção direta, gerando 192 hp a 5500 rpm. Pesando 1865 kg, o "Blue Wonder" atingia 170 km/h de velocidade máxima, chegando rapidamente às pistas onde a Mercedes competia.

Rudolf Uhlenhaut, ao lado do "Blue Wonder"

Infelizmente, após a tragédia nas 24 Horas de Le Mans de 1955, onde Jean Pierre Levegh, pilotando um Mercedes, perdeu o controle saindo da pista e matando mais de oitenta pessoas; fez com que a Mercedes suspendesse sua participação em corridas por bons anos à frente. Assim, o Renntransporter foi aposentado, e a Mercedes planejou levá-lo ao Museu da fábrica em Sttutgart,com um 300SL na plataforma. No entanto, o peso dos veículos combinados ultrapassava o limite suportado pelo piso do edifício, por isso, a Mercedes usou o Renntransporter para testar peças de protótipos dos novos carros, mas com uma frequência muito irregular. Sem trabalho, nem casa, relata-se que ele passou dez anos nos Estados Unidos como um veículo de serviço da Mercedes-Benz, até ser desmontado em 1967.



Mas em 1993, ao resgatar sua história, o departamento Mercedes-Benz Classics decidiu reconstruir o “Blue Wonder”. Sem muitos dados, e baseados em fotos e antigos registros, após 6000 horas de trabalho durante sete anos, o “Blue Wonder” ganhou vida novamente!



A maioria dos acessórios veio do Tipo 180, e lamentamos que a réplica que foi reconstruída pela Mercedes tem um motor quatro cilindros a gasolina acoplado a uma caixa de câmbio de 5 marchas, ao invés do seis em linha de 3 litros do 300SL. Talvez um aspecto se perdeu no tempo, e os registros existentes não trazem nenhuma referência sobre o fato do Renntransporter ter sido pintado de azul, ao invés da tradicional cor prata dos carros de competição alemães. Quem pode saber ?

Para saber sobrea  história do Mercedes-Benz 300SL, acesse a matéria do meu blog, no link:

https://leotogashi.blogspot.com/2022/04/mercedes-benz-300-sl-asa-de-gaivota.html

Da minha coleção


O Mercedes-Benz Renntransporter 1954 na escala 1:64 é da NOREV, e reproduz com fidelidade as linhas exóticas do “Blue Wonder”, conforme reconstruído pela Mercedes. As rodas são bem caprichadas, com o logo das três pontas, o para choques e a grade dianteira são bem acabadas, e os faróis são peças individuais, não pintados no casting.

As lanternas traseiras e o logo Mercedes na tampa traseira tem boa resolução e a plataforma é muito bem acabada, para acomodar o carro transportado. No caso desta mini, veio um 300 SL vermelho, também com o mesmo nível de acabamento, e com as portas se abrindo como asas de uma gaivota. As rodas do 300SL tem um cubo rápido, e o pneus são de borracha.



300 SL, NOREV


O casting é muito bem feito, sem imperfeições, com uma pintura brilhante e uniforme. Apenas os para choques poderiam ser prateados, e o recorte das janelas das portas ficou com as colunas muito largas, não correspondendo ao original; creio que tendo as portas que se abrem, o designer achou por bem deixar as colunas mais largas e resistentes.

Team Trasnport #70, Hot Wheels, 2024


Mercedes-Benz 300 SL, Hot Wheels, 2024



O set da Mattel é da Série Team Transport, #70, de 2024, também com o Renntransporter "Blaues Wunder" (Maravilha Azul, em alemão), junto com o Mercedes-Benz 300 SL "Asa-de-Gaivota" na plataforma. O acabamento é mais cuidadoso do que os modelos da linha normal, com faróis e lanternas demarcadas, assim como os emblemas da estrela de três pontas. As rodas são especiais, com pneus de borracha, e a base é de metal. Apenas não tem partes móveis como o da NOREV.

quinta-feira, 24 de março de 2022

SHELBY COBRA DAYTONA COUPÉ

SEIS CARROS QUE FIZERAM HISTÓRIA

Shelby Cobra Daytona Coupe - 1964

Carrol Shelby havia vencido as 24 Horas de Le Mans, junto com Roy Salvadori, em 1959. Com sua carreira de piloto limitada por seus problemas cardíacos, passou a construtor, com seus Shelby Cobra Roadster fazendo sucesso nas competições dos Estados Unidos. Mas nas participações no velho continente, chegou à conclusão de que o Roadster não era páreo para as Ferrari 250 GTO, as Maserati e Aston Martin, carros GT com capota, mais aerodinâmicos e velozes do que os roadster abertos.

Na reta Mulsanne, em Le Mans, com 3,7 milhas (6,0 km) de extensão, o Shelby Cobra atingia 157 mph (253 km/h), cerca de 30 mph (48 km/h) a menos do que a Ferrari 250 GTO, cronometrada a 186 mph (299 km/h). Dada a extensão do trecho (antes que se fizessem as chicanes), essa diferença de velocidade significava cerca de 10 segundos por volta, anulando qualquer vantagem de potência e aceleração que os roadster conseguiam nos trechos mais sinuosos.

O Cobra Daytona em construção na Shelby American, em Venice, California.

No segundo semestre de 1963, Shelby pediu que Pete Brock desenhasse o perfil aerodinâmico para um Cobra com cabine, e Bob Negstad ficou responsável pela suspensão. Mais tarde, Negstad projetou o chassi e suspensão do Ford GT40, e a suspensão do Cobra CSX3000, que muitas vezes era chamada de “Cobra mola-espiral”.

Brock esboçou o projeto no chão da oficina da Shelby America, começando com o chassi CSX 2014 do roadster batido pilotado por Skip Hudson na corrida de Le Mans de 1963, Brock removeu a carroceria, reposicionou o motor, colocou um assento e a coluna de direção e volante no alinhamento de onde achava que deveriam estar. Ele então colocou o piloto Ken Miles no carro e, usando sucata de madeira e fita adesiva, projetou o pára-brisa - o primeiro componente a ser fabricado para o carro. Em seguida, ele intercalou os moldes de madeira e, enviou o carro para a Cal Metal Shaping para finalizar os painéis de alumínio à mão.

Na traseira em especial, Brock foi buscar uma solução de cauda truncada, conhecida desde os anos 1930 como ‘conceito Kamm’, formulado por Wunibald Kamm e Reinhold Koenig von Fachsenfeld. Brock havia visto os estudos de Kamm enquanto trabalhava na GM, no projeto do Corvette de segunda geração. Este design, além de diminuir o arrasto aerodinâmico, reduzia o movimento ascendente da traseira em altas velocidades. Até então, a traseira terminando no formato em gota era a solução mais comum, e Brock teve certa dificuldade em convencer os outros membros da equipe, especialmente Phil Remington, que achava que um desenho de 30 anos atrás não funcionava na vida real. Felizmente, Ken Miles, junto com o australiano John Ohlsen e Shelby confiaram em Brock, que tinha apenas 23 anos, porque queriam que o carro funcionasse, sem ligar para a aparência dele.

CSX2287: o primeiro Shelby Daytona Coupe.

Pete Brock ao lado do Daytona

Com os fundos que conseguira com a Goodyear, Shelby encomendou dois chassis para a AC, numerados CSX 2286 e CSX2287. Este último foi o primeiro Daytona Coupe completado, e o primeiro integralmente construído
na Shelby American, de Venice, California. Desde os primeiros esboços de Pete Brock, até o carro ficar pronto para rodar foram cerca de 90 dias, um prazo recorde numa época de recursos limitados no início da década de 1960!

A carroçaria montada sobre o chassi CSX2014 foi transferida para o CSX2287; o motor 289 foi instalado neste chassi e a caixa T-10 da Borg-Warner com quatro velocidades foi acoplada. Logo no primeiro teste do modelo, em Riverside, California, Ken Miles baixou o recorde da volta em 3,5 segundos! Na reta principal, que tinha uma milha (1,6 km) um espantado Ken Miles não acreditava que conseguiu atingir 186 mph (299 km/h) nas cinco primeiras voltas; e comentou que “quase voou, aliviando bastante o acelerador” a velocidades acima de 160 mph (260 km/h). Mais 30 dias se passaram até Miles registrar novamente na reta de Riverside a velocidade de 190 mph (310 km/h).

O Daytona nos 2000 km de Daytona Continental

Sua primeira corrida oficial foi em 16 de fevereiro de 1964, nos 2000 km Daytona Continental, pilotado por Dave MacDonald e Bob Holbert, conseguindo a pole position com um tempo de 2:08.200 a uma velocidade média de 106,464 mph. Considerando-se que o carro ainda não estava 100% pronto, a equipe ficou muito animada com os resultados obtidos.

No entanto, no pit stop da volta 209, o carro pegou fogo e acabou com as esperanças de uma estreia brilhante. Reparado e ajustado para as 12 Horas de Sebring, o Daytona Coupe obteve sua primeira vitória na classe e 4º na geral, atrás dos protótipos da Ferrari, mas na frente da Ferrari 250 GTO da equipe N.A.R.T.

O CSX2287 tem um extenso registro histórico de corridas; competindo em Daytona, Reims, Spa-Francorchams, Oulton Park TT, 24 Horas de Le Mans, Tour de France e em Bonneville Salt Flats. Ele foi pilotado por Dave MacDonald, Bob Holbert, Jo Schlesser, Phil Hill, Jochen Neerpasch, Chris Amon, Innes Ireland, Andre Simon, Maurice Dupeyron, Bob Johnson e Tom Payne.

O Cobra Daytona Coupe - CSX2287 em Le Mans, 1964

Le Mans, 1964

Em Le Mans, em junho de 1964 o carro foi pintado na cor Viking Blue Metallic, com as faixas brancas longitudinais e a área em torno dos faróis coberta com adesivos brancos, para facilitar a identificação do carro nos pit-stops. Correndo pela escuderia de Briggs Cunningham, Amon e Neerpasch lideraram a classe GT até o carro ser desclassificado na décima hora (na volta 131) por necessitar de energia externa para dar nova partida no motor, por falha na bateria e alternador. Mas Shelby conseguiu seu triunfo com o Daytona de sua equipe oficial, pilotado por Gurney e Bondurant, que chegou em 4º lugar na geral e primeiro na classe GT, justamente à frente de duas Ferrari 250 GTO.

O Cobra Daytona Coupe em Bonneville Salt Flats

O CSX2287 retornou aos Estados Unidos e finalizou sua carreira nas competições batendo 23 recordes mundiais da USAC/FIA em Bonneville Salt Flats, em novembro de 1965, pilotado por Craig Breedlove, Bobby Tatroe e Tom Greatorex, durante uma sessão de testes de pneus da Goodyear.

Saiba o restante da trágica história do primeiro Daytona Coupe no link:

https://leotogashi.blogspot.com/2022/03/cobra-daytona-coupe-chassi-csx2287.html

A pequena equipe de Shelby estava dando suporte para os Roadster nas corridas, e não tinha como fazer as próximas cinco carroçarias de alumínio. Shelby entrou em contato com seu amigo argentino Alessandro De Tomaso, que morava na Itália  ̶  por sinal, o De Tomaso Mangusta utilizava um motor Ford 289, preparado pela Shelby  ̶  e De Tomaso indicou a Carrozzeria Gransport, uma encarroçadora de Modena, Itália. Os italianos tiveram dificuldades em ler os projetos de Brock, pois ele utilizava o sistema em polegadas, ao passo que os italianos utilizavam o sistema métrico. Parece que na adaptação e improviso dos italianos, os Daytona Coupe ficaram ainda mais bonitos do que o primeiro protótipo feito por Brock. Um sétimo Shelby Daytona Super Coupe #CSB354 protótipo começou a ser trabalhado, mas nunca foi finalizado, e não é contado nas estatísticas de produção.

CSX2286 – a “Arma Secreta” de Shelby contra as Ferrari

CSX2286

Shelby havia testado o CSX2286 com um motor da NASCAR, um V8 de 427 cid, com bloco de ferro e cabeçotes de alumínio. Ele queria participar das 24 Horas de Le Mans de 1964, com este chassi e motor, e enfrentar a Ferrari na classe dos protótipos. Pediu para Ohlsen aumentar o entre eixos em 3 polegadas, para encaixar o Big Block da Ford. Isto feito, o segundo chassi adquirido da AC Cars foi enviado para a Carrozzeria Gransport, para ser encarroçado, e Ohlsen deveria supervisionar a instalação do motor e transmissão. No entanto, a Ford argumentou que o motor teria problemas de superaquecimento, e enviou um V8 de 390 cid à Itália. Isto atrasou a montagem do carro e Shelby ficou numa saia justa pois sua “arma secreta” não ficaria pronta a tempo para a corrida.

“O carro ficou 70% pronto”, diz Pete Brock. “Ele estava esperando uma longa lista de peças da Ford, incluindo uma embreagem.” Shelby deve ter ficado desapontado. Com mais de 500 cavalos de potência e pesando apenas 2.200 libras, o cupê elegante e aerodinâmico teria sido o carro mais rápido na reta de  Mulsanne de três milhas de extensão naquele ano. “Estávamos a 300 km/h no carro 289”, diz Brock. “Então esse teria facilmente passado de 200 mph (322 km/h).”

Shelby alegou que o carro sofrera um acidente quando estava sendo levado para a França, e que não correria desta vez. “Acho que essa história foi inventada por Shelby como uma resposta ao motivo pelo qual nunca chegou à França para a corrida”, diz Peter Brock. Como algumas pessoas sabiam do plano de Shelby de envergonhar a Ferrari com um protótipo Daytona Coupe em Le Mans e o carro+ nunca apareceu, ele divulgou a história de que havia acidentado no caminho para a França.”

Enzo deve ter dado risada quando soube do infortúnio de seu rival, e sua equipe ganhou muito naquele ano, com as Ferraris conquistando os três lugares do pódio, com a 275P em primeiro, seguida por duas 330P. A equipe de Shelby não tinha um bom planejamento, mas um Daytona Coupe, CSX2299 - com Ohlsen como chefe de equipe e dirigido por Bob Bondurant e Dan Gurney - terminou em quarto lugar, vencendo a classe GT sobre os GTOs de Enzo.

Depois de Le Mans, Ohlsen esperava preparar o CSX2286 para a última corrida da temporada em Monza. “Nós até começamos a chamá-lo de ‘The Monza Coupe’, em oposição ao Daytona Coupe”, diz Brock com uma risada. Mas facções dentro da Ford não queriam que o carro competisse com o novo GT40 da empresa e as peças nunca chegaram. Outra versão relata que o carro estava quase concluído, mas a equipe foi avisada que a etapa de Monza fora cancelada. Na verdade, a corrida aconteceu, mas Enzo Ferrari forçou o Auto Club d’Italia para invalidar a prova e os classificados não receberiam nenhum ponto no campeonato.

A Ferrari tinha uma pequena vantagem de pontos antes de Monza, e Enzo sabia que os seus GTO não eram rápidos o bastante para vencer na pista rápida de Monza; então ele lançou mão de sua influência nos bastidores e conseguiu o cancelamento da prova. Sem pontos a ganhar, a Jaguar, Aston Martin, Ford e Cobra optaram por não participar. Assim a Ferrari conquistou na Classe GT, e logo depois, anunciou que não disputaria a temporada de 1965 “pois ele achava injusto correr contra os seus próprios clientes, blá, blá, blá...!!

O Cobra Daytona CSX2286 em Le Mans, 1965

O CSX2286 foi enviado aos Estados Unidos voltando à sua configuração inicial desfazendo as 3 polegadas que foram acrescentadas ao chassi; e o motor 289 foi reinstalado no carro. Ele foi utilizado apenas mais uma vez, nas 24 Horas de Le Mans de 1965, pilotado por Gurney e Jerry Grant, liderando a classe GT III até a 15ª hora, mas problemas de embreagem causaram seu abandono na volta 204.

Nesta prova, Shelby entrou com 12 carros (entre Roadster e Coupé), e a Ferrari com 11. Todos os Cobra abandonaram, exceto o CSX 2602, pilotado por Jack Sears e Dick Thompson, que chegou em 8º na geral e 3º na sua classe GT III. Todos os Ferrari também abandonaram; mas Masten Gregory e Jochen Rindt, com Ed Hugus venceram a Classe GT numa Ferrari privada da Equipe N.A.R.T.

Testado pela revista Car & Driver em 1981, o Daytona atingiu 60 mph em 4,4 segundos, 100 mph em apenas 10,5 segundos, fazendo o quarto-de-milha em 12,7 segundos a 111 mph.

Atualmente, o CSX2286 está na coleção de Rob Walton, herdeiro da cadeia de supermercados Walmart. Ele é o único proprietário a correr com um Cobra Daytona em corridas de carros antigos. O carro sofreu um acidente em agosto de 2012 no Laguna Seca Raceway devido à trava dos freios, e não por erro de pilotagem; mas foi devidamente reparado e restaurado completamente. Ele voltou a correr no Festival de Goodwood em 2015.

“Este carro vale mais de US$ 15,000,000, diz Lance Stander, CEO da Shelby Legendary Cars, uma empresa que constrói réplicas autorizadas do Shelby Cobra Daytona Coupé, Shelby Cobra Roadster, Ford GT 40 e Corvette Grand Sport de 1963.

CSX2299 – o Vencedor de Le Mans

O Daytona vencedor das 24 Horas de le Mans em 1964

Este foi o segundo carro completado pela Carrozzeria Gransport; e competiu em nove corridas da FIA (24 Horas de Le Mans por duas vezes, Reims, Goodwood Tourist Trophy, Tour de France, 24 Horas de Daytona, 12 Horas de Sebring, Oulton Park TT e Enna); vencendo em quatro ocasiões: Le Mans 64, Goodwood 64, Daytona e Sebring, em 65, e uma etapa do Tour de France (Rouen). O carro foi pilotado por Dan Gurney, Bob Bondurant, Maurice Trintignant, Bernard de St. Auban, Jo Schlesser, Hal Heck, Jack Sears e Dick Thompson. Chegou em primeiro na sua classe GT nas 24 Horas de Le Mans de 1964, com Gurney e Bondurant, e 4º na geral, à frente de duas Ferrari 250 GTO. Atingiu a velocidade de 196 mph (315 km/h) na reta de Mulsanne.

O CSX2299 que correu em Sebring 1965

O carro tinha a cor Viking Blue, mas foi repintado com a Guardsman Blue, com as faixas brancas longitudinais, e mais uma faixa transversal sobre o para lama dianteiro esquerdo em 1965. Em 1964, o carro bateu recordes de volta em Le Mans, Reims e Rouen; também o recorde de distância em Le Mans e Goodwood. Em 1965, bateu o recorde de volta em Oulton Park.

O CSX2299 foi o último Daytona vendido por Shelby em cuja Nota Fiscal constava e expressão “The Number One Cobra Daytona Coupe”. Atualmente, o carro pertence ao Larry H. Miller Group, e está no Miller Motorsports Park Museum, em Tooele, Utah. Outras fontes informam que ele está à mostra na Shelby American Collection, em Boulder, Colorado.

CSX2300 – o Daytona de Shelby

O CSX2300 em Nurburgring 1965

Este Daytona foi alugado para a Alan Mann Racing pela Ford da França, para participar nos 1000 km de Nurbürgring de 1965, representando a França. Foi pintado de branco e tinha uma larga faixa central azul, ladeada por duas estreitas em Vermelho, cores da bandeira francesa. Os conhecidos pilotos franceses Andre Simon e Jo Schlesser levaram o Daytona ao 3º lugar na categoria GT III, chegando em 12º na geral. Após a corrida, o Daytona foi levado à Alan Mann Racing e repintado na cor Guardsman Blue com as largas faixas brancas. O carro ficou com Shelby, até ser leiloado pela RM Auctions por US$ 4,4 milhões em 19 de Agosto de 2000. Atualmente (2015) ele está nas mãos de Daniela Ellerbrock, na Alemanha.

CSX2601 – O Campeão Mundial de Marcas

CSX2601 em Nurburgring 1965

Este foi o quarto Daytona construído e o terceiro completado pela Carrozzeria Gransport. Ele correu em oito competições da FIA em 1965 (Daytona, Sebring, Monza, Spa, Nurburgring, Le Mans, Reims, Enna). Venceu quatro vezes na classe GT III (Monza, Nurburgring, Reims e Enna), e foi pilotado por Bob Johnson, Tom Payne, Bob Bondurant, Allen Grant, Jochen Neerpasch e Jo Schlesser.

Em Reims, pintado de Guardsman Blue, pilotado por Bondurant e Schlesser, venceu a classe GT III, assegurando os pontos necessários para conquistar o World Sportscar Championship (Campeonato Mundial de Carros Esporte, na época chamado de Campeonato Internacional de Marcas GT).

CSX2601 num evento de carros antigos

O CSX2601 apareceu no filme Red Line 7000, e Bob Bondurant acabou adquirindo o carro de Shelby em 1969. Em 15 de Agosto de 2009, o carro foi leiloado pela Mecum’s Monterey Auction por US$ 7,25 milhões, batendo o recorde de maior valor pago num carro americano até então; e hoje ele faz parte do acervo da família Perez Companc, na Argentina.

CSX 2602 – o Daytona de Filipinetti

O CSX2602

O quinto Daytona e quarto completado pela Carrozzeria Gransport competiu em cinco corridas em 1965 (Daytona, Sebring, Monza, Spa, Nurburgring e Le Mans), foi pilotado por Rick Muther, John Timanus, Lew Spencer, Jim Adams, Phil Hill, Jack Sears, John Whitmore, Peter Sutcliffe e Peter Harper.

Nas 24 Horas de Le Mans, em 19-20 de junho de 1965, os britânicos Sutcliffe e Harper competiram como CSX2602 pintado nas cores Vermelho e Branco, cores da Escuderia Filipinetti. A Ford havia esgotado sua cota de inscrições e pediu para Georges Filipinetti pegar um Daytona da Alan Mann Racing e inscrever o carro na competição. O Daytona Vermelho e Branco correu até a 10ª hora, quando uma junta do cabeçote queimada o tirou da corrida.

O Cobra Daytona correndo em Le Mans
pela Scuderia Filipinetti

Após a corrida, o carro voltou para a Alan Mann Racing e foi repintado nas cores da Shelby American, e nunca mais competiu. Atualmente é de propriedade de Kazuo Murayama, de Tokyo; apresentado no Pebble Beach Concours em 2015, venceu na classe GT.





CONCLUSÃO

Os carros ingleses, franceses, alemães e italianos certamente contribuíram em muito para escrever a história do automóvel, e por tabela, podemos dizer o mesmo do cenário automobilístico de competição. Mas Carrol Shelby, com seus Cobra Roadster e Daytona Coupe representaram muito bem os Estados Unidos, na primeiro metade dos anos 1960, batalhando nas pistas mais famosas do mundo e gravando para sempre o seu nome ao lado de Ferrari, Porsche, Jaguar, e outros. A breve presença dos Cobra deveu-se ao engajamento de Shelby no projeto do GT40, onde Henry Ford II despejou milhões de dólares para bater a Ferrari no principal palco da Europa, as 24 Horas de Le Mans.

DA MINHA COLEÇÃO




O Cobra Daytona Coupé na escala 1:18 é da YatMing, na tradicional cor azul com as faixas brancas que se tornaram padrão dos Shelby Cobra. Tem um bom detalhamento, com a cobertura sobre os faróis, limpador de para brisa, frisos e detalhes da carroçaria. O grande capô dianteiro se abre, exibindo o V8 de 289 cid, com os Escapamentos saindo pela lateral abaixo das portas, que se abrem. Há poucos detalhes no cofre do motor, como a suspensão dianteira, com as rodas que esterçam. Estão lá os rebites do vidro traseiro, com o estepe afixado como o original. A traseira truncada com as diminutas lanternas, e o bocal de abastecimento no paralamas traseiro direito.

Em termos de acabamento, ele traz o número 15, com que o Daytona com chassi CSX2299 correu nas 12 Horas de Sebring em 1965. Pilotado por Jo Schlesser e Bob Bondurant, o carro chegou em 4º na geral e primeiro na sua classe GT III, num total de 187 voltas. Mas é pena que a miniatura não traz os decalques dos patrocinadores para reproduzir o exemplar desta competição (possivelmente devido a direitos de reprodução destas marcas)

O Daytona da Hot Wheels


O modelo da Hot Wheels é um Cobra Daytona Coupe, da série Treasure Hunts (modelos com um acabamento melhor e produzido em menores quantidades do que os Mainlines), bem reproduzido pela escala (1:64), mas peca pelas rodas padrão da HW e um tanto desproporcionais para o modelo, inclusive as traseiras bem maiores do que as dianteiras. A decoração é livre, sem nenhuma referência aos modelos reais, mas tem até o estepe que pode ser visto pela janela traseira.







O outro exemplar tem a decoração da Equipe GULF Racing, bastante procurada pelos colecionadores, mas tem apenas o apelo de marketing, pois nenhum Cobra jamais correu com as cores da Equipe GULF. A Mattel usa ao máximo o licenciamento para as miniaturas e no caso da GULF Racing, lança outras variações, trocando o azul celeste por branco ou azul royal.

 REFERÊNCIAS

https://en.wikipedia.org/wiki/Shelby_Daytona

http://www.autoentusiastas.com.br/2015/11/cobra-daytona-cupe/

https://pt.wikipedia.org/wiki/24_Horas_de_Le_Mans_de_1964

https://www.hagerty.com/media/car-profiles/shelbys-1964-cobra-daytona-coupe/

https://velocetoday.com/chassis-history-of-the-six-daytona-coupes-by-pete-brock/

https://sportscardigest.com/in-depth-history-of-the-shelby-cobra-daytona-coupe/

https://www.shelby.com/en-us/Vehicles/Shelby-CSX9000-Daytona-Coupe

https://www.cnn.com/style/article/shelby-daytona-cobra-coupe/index.html

https://www.hagerty.com/media/car-profiles/shelbys-1964-cobra-daytona-coupe/

(As fontes adicionais desta matéria são: CNN, Car&Driver Magazine, The SAAC Registry, The LA Times e The Orange County Register, 2001 e Wallace Wyss, que estava na audiência.)

 

 

domingo, 13 de março de 2022

Heart of a Gambler (Coração de um apostador)

Na vida, como nas corridas e construção de carros, Carrol Shelby continua contrariando as probabilidades.
Por Heard Shuldiner
Car and Driver, Outubro de 1991.
Carrol Shelby e Phil Hill no Cobra Nº 12 em Sebring


Vinte e cinco anos depois de inventar uma popular mistura de pimentão do Texas, Carrol Shelby pode, finalmente, comê-lo sem sofrer azia. Ele deve isso ao jovem coração batendo em seu peito, que tem a metade de sua idade.
Foi notável história de sucesso médico para um homem que, apenas um mês antes que o novo coração fosse transplantado em seu peito, em junho de 1990, deitado em uma cama de hospital, tinha a certeza de que sua lendária sorte tinha finalmente acabado, condenado com um coração que tinha perdido 86 por cento de sua capacidade. E embora a taxa de sobrevivência de transplantes cardíacos permaneça uma proporção arriscada - seu cirurgião lhe disse que a taxa de sucesso é de cerca de 75% nestes dias - Shelby apareceu menos de um ano depois para dirigir o carro-madrinha - muito rápido, disseram alguns -  na tradicional Indy 500. De volta ao Oval de Indianápolis (Brickyard para os mais íntimos), Shelby parecia em melhor estado de saúde do que tinha sido em um quarto de século. Certamente seu jeito texano com palavras era salgado como sempre – quando pediram para contrastar como ele se sentiu antes e depois da operação, Shelby disparou: "É como a merda de frango e salada de frango! Ano passado, pensei que estaria morto antes da última Indy 500, ficaria feliz apenas de sonhar que eu poderia voltar aqui numa maca e assistir a corrida. Mas aqui estou, dirigindo o Pace Car”, disse Shelby com uma sensação de admiração na voz. “Você pode imaginar o quão emocionante é isso para mim?”.
Carrol Hall Shelby, piloto profissional da década de 1950, que dirigia com um macacão e tornou-se um designer lendário de supercarros que levam o seu nome, estava desfrutando cada momento de seu tempo acrescentado de vida. Era a segunda vez que pilotava um Pace Car em Indianápolis, e para ensaiar, o texano alto de cabelos brancos dirigiu mais de 1600 quilômetros ao redor do Brickyard (apelido da pista oval de Indianápolis) em um Dodge Viper, numa velocidade que provocaria uma parada cardíaca se houvesse um passageiro com ele.
Carrol Hall Shelby era uma das 1.700 pessoas nos Estados Unidos que receberam um transplante de coração no ano de 1990.
Seu notável histórico no mundo das corridas levou seu cirurgião a predizer que Shelby era um “sobrevivente de corridas de longa duração”. Ele confessou que estava num ritmo bom até oito horas por dia, mas agora começava a ficar cansado depois de doze ou quatorze horas de trabalho. Toda essa energia o impulsionou durante toda a sua vida: nascido na pequena cidade de Leesburg, no Texas, em 11 de janeiro de 1923, Shelby era filho de um carteiro rural que gostava de entregar rapidamente as correspondências num Whippet 1928 (carro fabricado na época pela Willys Overland).
O jovem Carrol muitas vezes acompanhava seu pai, e incentivava-o a ir sempre rápido. Desde então, Carrol sempre ficou ligado às altas velocidades.
Ele foi piloto de bombardeiro durante a Segunda Guerra Mundial, lojista num campo de petróleo, criador de galinhas quando voltou aos Estados Unidos, caçador de grandes animais e líder de safári africano, distribuidor de pneus e magnata do chili.
Algo que é dificilmente mencionado durante os últimos 30 anos de sua vida, foi o quão perto do limite sua saúde o colocou, a dor e preocupação que sempre o acompanharam. Ele desenvolveu uma doença cardíaca aos sete anos de idade, e aos 38 anos, teve de abandonar a carreira de piloto por causa da fortes dores de angina que sentia no peito. O ponto alto de sua carreira foi em 1959, quando se tornou o segundo americano (Phil Hill foi o primeiro) a vencer as 24 horas de Le Mans; graças à ajuda de tabletes de nitroglicerina que colocava debaixo da língua durante a corrida para suportar as dores no peito.
Ele disse mais tarde que “venci também o US National Championship em 1960 com as pílulas de nitroglicerina”.
Shelby pilotando um Aston Martin de Formula Um,
numa corrida Vintage em Long Beach

Ele se submeteu a quinze cirurgias durante quinze anos para controlar sua doença cardíaca e antigas lesões. Ele fez duas cirurgias de Bypass no coração em 1973 e 1978, além de desentupir as duas carótidas. Curiosamente, Shelby contou que sua experiência hospitalar mais dolorosa foi quando teve de fazer enxertos de pele no seu pé, porque deixou cair uma torta de batata doce quando foi retirá-la do forno.
As novas tecnologias médicas reduziram a espiral negativa da doença cardíaca de Shelby, mas não o suficiente. Ao fazer 63 anos, ele ficava a maior parte do tempo na cama, e seu cardiologista, Dr. Nicholas Diaco, lhe disse que se quisesse continuar vivendo, teria que ter um novo coração. O Dr. Rex Kennamer, seu médico por 30 anos também concordou.
Ao que Shelby respondeu: “Vou tentar porque tenho uma vontade incrível de viver!! Não sei se é pelo dinheiro, ou porque meus banqueiros me deixam tão empolgado!!”. 
Shelby tinha consciência de que as técnicas de transplante estavam bem desenvolvidas, e completou: “Eu não gostaria de viver como um inválido”.
Corações para transplante são escassos, e não basta ter dinheiro para conseguir um. O paciente precisa ter uma saúde relativa para realizar a operação e sobreviver a ela.
“Depois de trinta anos de problemas cardíacos, eu não achava que poderia passar nos exames (para me qualificar)”, disse Shelby. Ele acha que sua atitude positiva o ajudou a passar por uma bateria de testes de um mês.
Apesar de sua idade, Shelby foi aceito no programa de transplante do hospital Cedars Sinai, em Los Angeles.
Será que sua celebridade o ajudou? Shelby não pensa assim. 
“Eu tive que esperar nove meses por um coração e quase não consegui.” Nesta linha de vida ou morte, a espera é aliviada apenas ligeiramente pelos programas de aconselhamento. “Eles fazem um trabalho maravilhoso nesses centros de transplante de preparar você para como a vida será”, disse Shelby. “Eles não dão socos e não dizem que vai ser um mar de rosas.”
Depois que foi determinado que Shelby estava saudável o suficiente para sobreviver a um transplante, ele recebeu um bipe eletrônico em novembro de 1989. Quando um novo coração fosse localizado, ele seria avisado.
“Você não precisa estar a mais de uma hora da cirurgia o tempo todo.” Shelby foi preterido várias vezes em favor de pacientes em condições ainda piores do que ele.
O Natal e o Ano Novo passaram, os meses de fevereiro e março se foram. Shelby, fraco demais para trabalhar, passava até 20 horas por dia na cama em sua casa em Bel Air. Ele foi atendido por um cuidador, o Rev. Elmer Ponce, um filipino que também é ministro batista. Shelby comia pouco e estava muito desconfortável para receber visitas. Seus dias solitários foram aliviados apenas pelas visitas de sua irmã, Anne Ellison, seus filhos e netos. Parecia que seu bipe ficaria para sempre em silêncio.
Reunião em Palm Springs, com Phil Hill, Bob
Bondurant, Dan Gurney, Roy Salvadori e por
fim, John Wyer.

Em meados de maio de 1990, havia uma dúvida considerável de que Shelby viveria o suficiente para ver a sala de cirurgia. “Finalmente, cheguei a cerca de quatorze por cento da função cardíaca”, lembrou Shelby. “Meus médicos me disseram que eu poderia viver apenas mais alguns meses.” No final daquele mês, Shelby, que estava fraco demais para ficar em casa por mais tempo, foi internado no Cedars Sinai e colocado em alimentação intravenosa. Ele não é homem para reconhecer ou verbalizar seus medos, mas pode-se imaginar como ele se sentiu quando dois outros candidatos a transplante de coração em salas próximas morreram antes que os corações pudessem ser localizados.
“Eu não estava preocupado em morrer durante a operação”, diz ele. “Tendo passado por duas cirurgias de bypass, eu sabia basicamente em que consistia a cirurgia. As chances são de que se você estiver em boa forma, você vai superar isso.” Shelby compara isso com as corridas: “Eu nunca pensei em bater – você nunca começa uma corrida dizendo: ‘E se eu bater'?".
E então, em junho, um coração foi localizado. O doador acabou tendo algo em comum com Shelby: ele era um jogador. Ao apostar em uma mesa de craps (dados) em Las Vegas, o homem de 34 anos sofreu uma hemorragia cerebral e desmaiou. Ele sobreviveu, mas nunca recuperou a consciência e, com danos irreversíveis, sua família depois de nove dias relutantemente tomou a decisão de desligar e doar seus órgãos.
Dr. Alfredo Trento, um veterano de 250 operações de transplante, voou para Las Vegas para remover o coração ele mesmo. Conhecendo o histórico de cirurgias de bypass de Shelby, o Dr. Trento teve o cuidado de retirar o suficiente das artérias de conexão para que ele pudesse substituir os vasos emendados de Shelby. Em seguida, o coração foi levado às pressas para Cedars Sinai, onde a operação de transplante de cinco horas transcorreu sem problemas.
Mas tudo estava longe de estar bem quando Shelby emergiu da anestesia. “Eu tive pneumonia e minha temperatura era de 104 graus (Fahrenheit).” Ele considera as horas críticas após o transplante mais como um sucesso das artes negras do que um triunfo da ciência médica. Os imunologistas misturaram um lote de antibióticos que curaram a pneumonia em apenas três horas. “Isso para mim é um milagre maior do que o fato de que eles podem transplantar um órgão agora”, disse Shelby.
Milhares de cartões chegaram e a central telefônica do Cedars Sinai foi inundada com ligações, mas apenas sua filha, Sharon Lavine, e os filhos Michael e Patrick foram autorizados a visitar. O irreprimível Shelby havia contrabandeado um telefone celular para tranquilizar alguns associados, e ele o usaria no dia seguinte.
Apenas quatro semanas depois, Shelby visitou sua casa de férias em Lake Tahoe na High Sierra. Nos vinte e cinco anos em que foi proprietário do lugar, Shelby diz que nunca conseguiu subir os 67 degraus da garagem de barcos até a casa principal sem parar pelo menos três vezes por causa de dores no peito. “Um mês após a operação de transplante, subi os degraus dez vezes – praticamente subi correndo, sem sentir dores de angina.” Shelby sorri com o que se lembra: “Foi a coisa mais emocionante que me aconteceu desde a operação.”
Alguns meses depois da operação, sentei-me com Shelby no deck de sua casa em Bel Air, no alto de uma colina com vista para a poluída Los Angeles. Ele usava calça de golfe e uma camisa polo com o escudo do Bel Air Country Club, e havia um grande anel em um de seus dedos, uma lembrança de ter pilotado o Pace Car na Indy 500 de 1987. Seu rosto estava bronzeado e ele parecia notavelmente relaxado enquanto bebia um copo de água gelada enquanto contava a provação pela qual passou. Seus comentários eram práticos e quase inteiramente técnicos. Ele descreveu seu transplante como se estivesse falando sobre trocar um motor fundido em um carro de corrida.
Shelby diz que não se preocupa com o transplante, nem sente como se houvesse uma bomba-relógio dentro de seu peito esperando para explodir. “Eu vivo de hora em hora, mas me sinto tão sortudo por estar aqui e me sentindo tão bem quanto estou.” Ele é, no entanto, rápido em reconhecer a natureza frágil de sua vida. “Sei que posso cair morto a qualquer minuto ou sofrer uma rejeição em alguns dias”, diz ele. “Mas eu não me preocupo com isso. Não vou me preocupar com mais nada pelo resto da minha vida.”
Dr. Trento, graduado da Universidade de Pádua, na Itália, que transplanta corações há quase uma década, diz que Shelby está altamente motivado e isso fez com que sua recuperação fosse mais rápida. O cirurgião diz que o sobrevivente de transplante de coração mais longo viveu por 19 anos, apenas para ser morto em um acidente de carro. Ele não prevê quanto tempo Shelby viverá, mas sente que seu paciente pode ter uma vida normal sem restrições, exceto aquelas impostas pela idade. Dr. Trento observou que Shelby está menos sujeito a infecções agora, embora o velho corredor ainda tome ciclosporina, uma droga forte que suprime o sistema imunológico. “Você aprende a se proteger de resfriados e infecções comuns”, diz Shelby.
John Wyer, com Shelby e Salvadori, e o 
Aston Martin DBR1/300 vencedor
de Le Mans em 1959

Shelby caminha em uma esteira diariamente por uma hora. Sua única restrição é manter sua pulsação abaixo de 120 batimentos por minuto, o que não oferece muito risco, já que seu novo coração, em repouso, bombeia de 95 a 100 batimentos por minuto, normal para pessoas com transplantes. A razão para isso é que o nervo vago e outros nervos de conexão que controlam os ritmos cardíacos são cortados quando o órgão do doador é removido. Os nervos não podem ser reconectados. Assim, o coração bate sozinho sem nenhum controle nervoso. A boa notícia é que esses nervos cortados são a razão pela qual Shelby pode comer seu próprio chili – os nervos eram usados para enviar sinais de azia, mas sem eles, agora ele pode comer o que quiser.
Depois de mais de um ano, biópsias realizadas a cada dois meses em seu novo coração não revelaram sinais de rejeição.
Shelby sente que as corridas e a construção de carros ocuparam muito de sua vida, e ele se distanciou dos dez negócios que possui. Suas principais empresas são uma distribuidora de pneus de corrida Goodyear e a Shelby Autos, a empresa que construiu os carros esportivos Cobra originais e carros esportivos modificados para Ford e Chrysler. Ele deixa a maioria das tarefas administrativas diárias para associados de longa data, frequentemente fugindo para férias no México com seus netos.
Shelby se aventurou na construção de automóveis em 1960 porque tinha um conceito de sonho para um novo tipo de carro esportivo. “Eu sabia que não duraria muito como piloto por causa do meu problema cardíaco”, diz ele, “então comecei a fazer planos para construir meu próprio carro”. Sua ideia não era única: combinar um poderoso motor V-8 americano com um chassi leve de carro esportivo europeu. Tal carro não pesaria muito mais com um V-8 americano porque os motores europeus de quatro cilindros, originalmente projetados para táxis e ônibus, eram longos e pesados. “Muitas pessoas tiveram a mesma ideia”, admite Shelby. “Acabei de ter sorte.”
Cerca de 1.000 Cobras foram montados entre 62 e 67. Eles foram vendidos a preços de US $ 5.900 a cerca de US $ 8.000. Ironicamente, à luz dos preços atuais do Cobra, foram essas etiquetas de preços que eventualmente forçaram Shelby a fechar.
Os homens que fizeram sua sorte foram dois jovens executivos da Ford, Lee Iacocca, então gerente de vendas da Ford, que acreditava que qualquer sucesso que Shelby pudesse ter passaria para a Ford e aumentaria as vendas de sua empresa. Don Frey, o deputado de Iacocca que se tornou presidente da Bell & Howell e hoje é professor da Northwestern University, convenceu Ford a apoiar o ex-piloto.
Mais tarde, Iacocca pediu a Shelby que fizesse uma versão esportiva do Ford Mustang. “Eu realmente não queria fazer isso”, confessa Shelby, “porque não achava que poderia fazer um carro decente com o Mustang”. Por insistência de Iacocca, Shelby fez uma grande reengenharia – transformando o Mustang em um dois lugares de manuseio tenso. O GT350 original que estava equipado com o motor do 289 Cobra logo se juntou ao GT500 de bloco grande e modelos conversíveis. Cerca de 14.000 Shelby Mustangs foram construídos de 65 a 70. Os preços para eles hoje chegam a US $ 50.000 no mercado de colecionadores.
Shelby diz que quando seu trabalho no Mustang terminou em 1969, seu problema cardíaco estava piorando. Shelby estava bem ciente de que seus pais morreram em tenra idade de doenças cardíacas. Isso convenceu Shelby de que ele precisava escapar da vida de negócios e fazer o que realmente queria fazer com seus anos restantes.
Mas ele seria atraído mais uma vez para voltar ao negócio de automóveis quando Iacocca se tornou presidente da Chrysler. Iacocca acreditava que a Chrysler, então à beira da falência, poderia se beneficiar de um pouco da magia Shelby. Ao todo, Shelby modificou seis modelos e uma picape para a Chrysler, construindo cerca de 6 mil veículos.
O favorito claro de Shelby: o Omni GLHS de 1986. “É divertido fazer uma mula que ultrapasse um cavalo de corrida”, diz Shelby sobre o pequeno carro de quatro cilindros turboalimentado de US$ 10.000. O GLHS representa o ideal Shelby – desempenho disponível para pessoas da classe trabalhadora.
Atualmente, Carrol Shelby está curtindo seu novo coração. “Quero fazer coisas que não consigo fazer há trinta anos fisicamente”, diz ele melancolicamente. E para enfatizar o ponto: “Eu tenho que fazê-los rapidamente ou ficarei muito velho e sofrerei as outras enfermidades que estarão se instalando em mim”.
Shelby sempre foi cheio de surpresas, e fez outra no último dia 10 de agosto de 1991, quando foi ao altar do casamento pela quarta vez. Sua nova esposa é Lena Dahl, que Shelby conheceu em 1967, quando ela tinha apenas 18 anos. A nova Sra. Shelby é uma ex-corretora de imóveis de Los Angeles e mãe de dois adolescentes.
Shelby também arrecada dinheiro para programas de transplante de órgãos e espalha a notícia de que mais órgãos doadores são vitais para ajudar todas as pessoas que são aprovadas para novos corações nunca os conseguem. No entanto, há 25 vezes esse número de cadáveres enterrados com bons órgãos”, acrescenta. “Não há razão para qualquer pessoa necessitada não conseguir um novo coração. Você pode dar anos de vida doando seus órgãos”, pede Shelby.
Pelo que Carrol Shelby gostaria de ser lembrado?
“Não me importo se sou lembrado ou não”, diz ele sem rodeios, acrescentando que “a fama é tão passageira que não serei lembrado por nada – não por muito tempo”.
Shelby prefere se concentrar nos anos restantes em sua vida notável. E o trabalho é uma das mais baixas de suas prioridades. “Não quero ser como Roger Penske (um amigo próximo), que é o único homem que conheço que ganhou US$ 300 milhões trabalhando com salário mínimo”, diz Shelby com uma risada. “Quero ficar bem o suficiente para viajar para onde quero ir, em vez de para onde tive que viajar. Eu nunca quero me aposentar completamente. Eu quero ter algo que mantenha meu interesse. Quero ter uma razão para me levantar de manhã. Eu nunca quero dizer: 'O que diabos eu vou fazer hoje?'”

Car and Driver, dezembro de 1991, páginas 132-138

P.S.:
Carrol Hall Shelby faleceu em 10 de maio de 2012, em Dallas, no Texas, à idade de 89 anos. Deixou sua esposa Cleo e os filhos Patrick, Michael e Sharon, e sua irmã Anne Shelby Ellison. Lena Dahl, segunda esposa de Shelby, faleceu em 1º de maio de 1991, num acidente de carro. A Fundação Carrol Shelby, criada em 1992, enquanto aguardava um coração para ser transplantado, angaria fundos para prover assistência médica aos que tem poucos recursos, inclusive crianças; provê oportunidade educacional e programas de treinamento aos jovens no setor automotivo. 
Deixou também uma inegável herança no setor automotivo e de competições, com carros maravilhosos, que tinham o poder de andar rápido, como imaginava, desde que acompanhava seu pai entregando cartas em alta velocidade. Pode-se afirmar que Carrol Hall Shelby viveu toda a sua vida em alta velocidade, e passou muito rápido por esta breve vida.